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Mistérios Milenares

O CASO DO DIA

UM MISTÉRIO EM ABERTO

O túmulo de Alexandre que Alexandria perdeu

ALEXANDRIA · SÉCULO 4 · GRAU DE MISTÉRIO, ALTO

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Mistérios Milenares 

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Mesa de campo ao entardecer sobre um terraço com vista para os telhados e minaretes de uma cidade litorânea do Mediterrâneo, diante de um mapa antigo da Alexandria helenística traçado com uma malha de busca à mão sobre o bairro real, uma lupa, uma bússola de latão, fotografias de escavação em preto e branco fixadas com fichas numeradas e um fragmento de cornija, sob luz âmbar focal, sem nenhuma tumba à vista

FICHA DO ARQUIVO

Achado: o túmulo de Alexandre, o Grande, fundador de Alexandria, um mausoléu chamado Soma onde o corpo embalsamado ficou exposto no centro da cidade por quase seiscentos anos.
Data: da fundação da cidade no século quatro antes de Cristo até por volta do século quatro depois de Cristo, quando as menções ao túmulo cessam, em Alexandria, no Egito.
Anomalia: Júlio César, Augusto e Caracala visitaram o sarcófago, que teria sido de ouro e depois trocado por um de vidro, e desde o desaparecimento mais de cem escavações e sondagens oficiais nunca reencontraram o corpo nem confirmaram se a tumba foi destruída num terremoto, transferida ou ainda repousa intacta sob as ruas modernas.

Existe um endereço perdido no centro de Alexandria, em algum ponto sob as ruas movimentadas da cidade moderna, onde por quase seiscentos anos repousou o corpo embalsamado do homem que fundou aquela cidade. Ninguém sabe onde. Não há mausoléu de pé, não há sarcófago à vista, não há uma pedra que aponte o lugar. O monumento mais famoso do mundo antigo simplesmente saiu dos mapas e nunca mais voltou.

O homem é Alexandre, o Grande. Em pouco mais de dez anos, ele saiu da Macedônia e montou um império que ia da Grécia até as margens da Índia, um domínio tão vasto que nenhum general depois dele conseguiu manter inteiro. Quando o conquistador partiu, na Babilônia, em 323 antes de Cristo, começou uma disputa que definiria o destino do próprio cadáver. O corpo virou uma relíquia política, e possuí-lo passou a valer tanto quanto herdar um pedaço do império.

O corpo foi embalsamado e virou objeto de cobiça política. Ptolomeu, um dos generais, desviou o cortejo fúnebre para o Egito e instalou os restos primeiro em Mênfis e depois numa tumba real no coração de Alexandria. Ter o fundador guardado ali dava legitimidade à nova dinastia, e a cidade passou a tratar o mausoléu como seu tesouro mais sagrado.

Esse mausoléu tinha até nome próprio: o Soma, palavra grega para corpo. Por séculos ele ficou aberto à visitação, num recinto real perto do cruzamento das duas grandes avenidas da cidade. Restou a pergunta que ninguém consegue calar: como um monumento tão central, tão visitado, tão conhecido, desapareceu sem deixar sequer a marca de onde ficava.

I

O registro

Os fatos duros começam pela lista de visitantes ilustres. As fontes antigas registram que Júlio César foi ver o túmulo, que Augusto depositou uma coroa de ouro e flores sobre o corpo e teria até tocado o rosto embalsamado, e que o imperador Caracala deixou ali o próprio manto e anéis como oferenda. Ver Alexandre de perto era uma espécie de peregrinação de poder, um jeito de o novo senhor de Roma se medir com o maior conquistador que já existira. Por séculos, passar por Alexandria sem visitar o Soma era impensável para quem mandava no mundo.

Some a tudo o detalhe do sarcófago trocado. Contam que o caixão original era de ouro maciço e que um dos últimos Ptolomeus mandou fundi-lo para pagar tropas, substituindo-o por um de vidro ou cristal transparente. Verdadeiro ou não, o relato mostra que, mesmo em vida da dinastia, o santuário já sofria intervenções e perdas.

E aqui entra o silêncio que intriga os historiadores. A partir do fim do século IV, as menções ao túmulo simplesmente cessam. Um pregador da época teria perguntado em público onde estava a sepultura de Alexandre, como quem já não sabia responder. Na escala dos séculos, o endereço mais célebre da cidade virou uma dúvida sem resposta.

Um conquistador dono de um império que ia da Grécia à Índia, exposto no centro de uma cidade por seis séculos, reverenciado por Césares e imperadores. E então, sem um registro de demolição ou de mudança, o túmulo some. Não do mundo apenas, mas da própria memória de onde ficava.

O que se sabe da cidade ajuda a entender o sumiço, sem fechá-lo. Alexandria foi sacudida por revoltas, incêndios, guerras civis e pela ascensão de uma nova fé que via com maus olhos o culto a um herói pagão. Terremotos e ondas gigantes atingiram a costa e afundaram parte do bairro real no mar. Qualquer uma dessas forças poderia ter engolido o monumento.

E aqui entra o mais moderno da história. Nas últimas décadas, arqueólogos abriram mais de cem escavações e sondagens oficiais pela cidade, furaram o subsolo de mesquitas, cemitérios e praças, e mergulharam no porto atrás do bairro real submerso. Cada anúncio de descoberta acabou desmentido. O sarcófago que César e Augusto viram continua onde ninguém consegue apontar: em lugar nenhum do mapa.

 
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II

A pergunta em aberto

A pergunta central é fácil de enunciar e difícil de fechar. Como um mausoléu tão famoso, no centro de uma das maiores cidades da Antiguidade, sumiu por completo, e o que restou do corpo e do sarcófago que ali estavam. Localização e destino, os dois pontos em aberto.

A leitura mais aceita pelos historiadores é sóbria. Não há mistério sobrenatural, e sim o acúmulo de catástrofes urbanas. Séculos de terremotos, incêndios, reformas e mudança de religião teriam apagado o monumento aos poucos, e a cidade moderna foi construída por cima, selando o que sobrou a metros de profundidade sob asfalto e concreto.

Há quem ache a explicação simples demais para um sumiço tão limpo. Para essa outra leitura, um monumento daquele porte não desaparece sem rastro por acaso: o corpo teria sido transferido em segredo, escondido durante a perseguição aos cultos pagãos, ou levado para longe da cidade. Alguns pesquisadores chegaram a apontar oásis no deserto, cemitérios antigos e até o subsolo de uma mesquita como o esconderijo final, sempre sem prova que sustentasse a busca. É uma ideia atraente, mas que esbarra na ausência de qualquer documento que confirme a mudança.

O ponto forte da explicação sóbria é o contexto físico. Alexandria afundou boa parte de seu bairro antigo no mar, mudou de traçado várias vezes e enterrou camadas inteiras de sua própria história. Nada exige um enigma além do humano para que um prédio, por mais célebre, se perca sob quinze séculos de reconstrução.

O ponto fraco é o tamanho do alvo. Não se trata de uma cova anônima, e sim de um santuário monumental que meio mundo antigo conhecia de nome e de localização. Que nenhuma das mais de cem buscas oficiais tenha encontrado sequer a fundação do Soma é um fracasso difícil de explicar só com o desgaste do tempo.

E há a barreira que a arqueologia sozinha não derruba. Boa parte do centro antigo de Alexandria está hoje sob prédios habitados, mesquitas em uso e ruas movimentadas, onde cavar é caro, lento e politicamente delicado. O túmulo pode estar intacto três metros abaixo de um quarteirão inteiro que ninguém tem como demolir para conferir.

Fica a imagem final, e ela não sai da cabeça. Uma esquina qualquer da Alexandria de hoje, o trânsito passando por cima, e em algum ponto sob aquele asfalto o fundador da cidade, guardado dentro do sarcófago que Césares vieram reverenciar. Nenhuma placa, nenhuma entrada, nenhuma escavação que resolva. Só a cidade viva por cima, sentada sobre o endereço que o tempo apagou.

O caso de hoje fica em aberto.

Amanhã, abrimos outro.

 

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“Busca pelo conhecimento, perguntas sem respostas , mistérios cada vez maiores.”

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E

“O conhecimento perdido por falta de referências provoca incertezas e mistério.”

e****@gmail.com
D

“Desconhecia completamente as particularidades ( inclusive climáticas ) dessa história”

d****@gmail.com

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