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Mistérios Milenares · Um pote de 2 mil anos que talvez gerasse eletricidade
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O CASO DO DIA

UM MISTÉRIO EM ABERTO

O jarro de cerâmica que talvez fosse uma pilha

PERTO DE BAGDÁ, IRAQUE · ~250 A.C. A 250 EC · GRAU DE MISTÉRIO, ALTO

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Jarro de cerâmica do período parto aberto, com cilindro de cobre e haste de ferro corroída por dentro, sob luz âmbar focal

Cobre, ferro e vestígio de ácido dentro de um pote parto: a receita de uma pilha, séculos antes de Volta. Ou é coincidência de despensa, ou é a evidência elétrica mais deslocada do arquivo. O dossiê de hoje pesa as duas.

Um jarro de barro, do tamanho de uma mão fechada, com um cilindro de cobre encaixado por dentro e, no meio dele, uma haste de ferro tão corroída que mal se segura inteira. É terracota comum, do tipo que se usava para guardar líquido ou óleo.

Mas a montagem é estranha demais para um pote de cozinha. O cobre está selado com asfalto. O ferro está suspenso no centro, sem encostar nas paredes, como se a posição importasse.

Encha esse arranjo com vinagre, com suco de uva azedo ou com qualquer ácido fraco, e um voltímetro acusa tensão. Pouca, entre meio e dois volts, mas real.

O objeto foi descrito por volta de 1938, perto de Bagdá, e desde então carrega uma pergunta que a arqueologia não fechou: aquilo era uma pilha, fabricada de propósito mil e quinhentos anos antes de qualquer registro conhecido de eletricidade, ou só um recipiente que, por acaso, faz o que uma pilha faz?

I

O registro

O achado vem de Khujut Rabu, nos arredores de Bagdá, e foi tornado público por Wilhelm König, então ligado ao Museu de Bagdá, por volta de 1938.

König notou a semelhança entre aquele jarro e algumas peças parecidas da coleção, todas com o mesmo trio: cerâmica por fora, cilindro de cobre no meio, haste de ferro no centro.

Foi ele quem levantou, pela primeira vez, a hipótese de que se tratava de uma célula galvânica, ou seja, uma bateria.

A datação é incerta e disputada. As estimativas oscilam entre o período parto, por volta de 250 a.C., e o período sassânida posterior, o que joga a peça em algum ponto de um intervalo de quase mil anos. O que não está em dúvida é a física.

Cobre e ferro são metais diferentes; mergulhados num eletrólito ácido, formam uma pilha elementar e geram corrente. Réplicas montadas por museus e por curiosos confirmam: enchendo o conjunto com solução ácida, sai tensão suficiente, em teoria, para um efeito mínimo de eletrodeposição em uma peça pequena.

O jarro gera eletricidade. Isso é fato verificável em bancada. O que ninguém demonstrou é que alguém, na Antiguidade, o tenha usado para gerar eletricidade de propósito.

Aqui é onde fato e hipótese precisam ser separados com cuidado. Está documentado: o objeto existe, a montagem cobre-ferro existe, e ela produz tensão quando preenchida com ácido. É hipótese tudo o mais.

Não se encontrou um único fio, terminal de saída, eletrodo externo ou objeto galvanizado associado a esses jarros. Não há texto parto, sassânida ou de qualquer outra cultura próxima descrevendo o uso.

E há uma explicação concorrente bastante prosaica: cilindros de cobre selados com asfalto eram um jeito conhecido de guardar rolos de papiro ou de pergaminho sagrado, e a haste de ferro poderia ser apenas o que sobrou de um suporte interno corroído pelo tempo.

II

A pergunta em aberto

O problema da bateria de Bagdá não é se ela funciona. É para que ela servia.

Uma pilha só faz sentido como tecnologia se houver algo na outra ponta do fio. Uma corrente que não vai a lugar nenhum é só uma reação química acontecendo dentro de um pote.

Para defender o uso galvânico, seria preciso mostrar o circuito: o fio que sai, o objeto que recebe a corrente, o resultado visível, uma camada de prata ou de ouro depositada sobre cobre, por exemplo. Nada disso apareceu ao lado dos jarros. A capacidade existe; o propósito, não.

E há a outra leitura, igualmente sem prova fechada. Se aqueles cilindros guardavam rolos, então a tensão que medimos hoje é um efeito colateral involuntário, uma coincidência de materiais, e não a função. Encaixar dois metais e um ácido produz corrente quer alguém queira, quer não.

O fato de um arranjo gerar eletricidade não significa que foi montado para isso, do mesmo modo que duas pedras que fazem faísca não provam que a pessoa que as carregava sabia acender fogo.

Por que, então, o ferro fica suspenso no centro, sem tocar o cobre, numa geometria que parece pensada? Por que selar com asfalto, isolando o conteúdo, se era só um pote de armazenamento?

E por que esses jarros aparecem em mais de um exemplar, repetindo o mesmo desenho, se ninguém deixou registro do que faziam com eles? A peça está ali, medível, montável, reproduzível em qualquer bancada. O motivo pelo qual ela foi construída continua trancado dentro do próprio barro.

O caso de hoje fica em aberto.

Amanhã, abrimos outro.

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☞ Quiz da edição

Verdadeiro ou Falso: réplicas da chamada bateria de Bagdá realmente geram tensão quando preenchidas com ácido, mas nunca se encontrou junto aos jarros nenhum fio, eletrodo de saída ou objeto galvanizado que comprove o uso elétrico na Antiguidade.

VVerdadeiro FFalso

Clique para descobrir se acertou.

Na edição de amanhã...

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