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O livro mais antigo da Europa só existe porque a fogueira que devia destruí-lo o carbonizou na medida exata de preservá-lo. O acaso raramente é tão irônico, e eu não consigo parar de pensar nisso. O dossiê abre entre as cinzas.
Em janeiro de 1962, em obras de estrada no desfiladeiro de Derveni, ao norte de Tessalônica, apareceu uma sepultura antiga. Em cima de um dos túmulos, entre os restos de uma pira funerária apagada havia séculos, alguém recolheu um punhado de fragmentos pretos e quebradiços. Pareciam carvão.
Eram as voltas enroladas de um rolo de papiro que o fogo da cerimônia tinha chamuscado, sem terminar de consumir.
Esse acidente é a razão de o objeto existir hoje. Papiro é matéria orgânica e apodrece no solo úmido da Europa em poucas décadas. O rolo de Derveni só atravessou 2.300 anos porque foi parcialmente carbonizado, e a carbonização o transformou em algo quase à prova de podridão.
O fogo que deveria destruí-lo foi o que o conservou. Dentro daquelas cinzas estava o texto manuscrito mais antigo que se conhece em toda a Europa.
I
O registro
A datação coloca o rolo por volta de 340 a 320 a.C., pela escrita e pelo contexto da tumba, embora o texto que ele copia seja mais velho, provavelmente do fim do século 5 a.C. Não é um documento administrativo nem uma carta.
É um tratado: um comentário linha a linha de um poema atribuído a Orfeu, a figura mítica da poesia e dos cultos de mistério gregos. O poema comentado se perdeu por completo. O que sobrou é a leitura que um pensador antigo fez dele.
E essa leitura é o que torna o papiro extraordinário. O autor não trata o poema órfico como história literal. Ele o lê como alegoria, e dá a cada nome divino um significado físico. Zeus vira o ar ou a inteligência que ordena o cosmos.
Os deuses, em vez de personagens, viram forças naturais disfarçadas de mito. É uma tentativa de explicar a religião pela razão, escrita por volta da mesma época em que Sócrates andava por Atenas, e preservada por mais de dois milênios num pedaço de carvão.
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"Compôs o poema sobre coisas reais, falando por enigmas." Papiro de Derveni, sobre o método do poeta órfico.
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Ler o que restava foi quase tão difícil quanto encontrar. O rolo chegou quebrado em centenas de pedaços enegrecidos, sem ordem entre si. Conservadores e estudiosos passaram décadas separando as camadas coladas pela queima, fotografando cada fragmento e tentando remontá-los como um quebra-cabeça sem caixa nem figura de referência.
A coluna inicial do texto, justamente onde um tratado costuma se apresentar, está entre as partes mais danificadas. O começo, que daria a chave da identidade, é o que mais sofreu com o fogo.
II
A pergunta em aberto
A lacuna central é simples de enunciar e teimosa de fechar: ninguém sabe com certeza quem escreveu o tratado. O autor não se nomeia no que sobrou. Ao longo das décadas foram propostos vários nomes da filosofia grega da época, defendidos com argumentos sérios e nenhum com prova decisiva.
Cada hipótese se apoia no estilo, no vocabulário e nas ideias do texto, e cada uma esbarra no mesmo limite: a parte que poderia confirmá-la queimou.
Sobra um paradoxo que define o caso. O objeto físico mais antigo do gênero na Europa carrega um pensamento sofisticado, racional, quase moderno em sua ambição de decifrar o mito, e mesmo assim mantém em segredo a mão que o produziu.
Temos o argumento inteiro de um homem que quis explicar os deuses, e não temos o nome dele. O rolo foi salvo pelo fogo que deveria apagá-lo, e devolveu quase tudo, menos quem falava.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
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