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Em dezembro de 1945, perto da cidade de Nag Hammadi, no Alto Egito, um camponês chamado Muhammad Ali cavava em busca de adubo natural ao pé de um penhasco de calcário. A enxada bateu em algo duro.
Era um jarro de cerâmica, alto como um homem pela cintura, lacrado no topo. Ele hesitou antes de quebrá-lo: havia o medo de soltar um djim, um espírito preso, mas também a esperança de ouro lá dentro.
Não havia ouro. Havia treze livros de papiro, encadernados em couro, escritos numa língua que ele não sabia ler. Eram cópias feitas por volta do século IV de textos cristãos que a Igreja decidiu deixar de fora da Bíblia. Alguém os havia trancado num jarro e enterrado no deserto.
A pergunta que sobrou não é o que os livros dizem. É quem precisou escondê-los, e do que estava com medo.
O REGISTRO
O que se sabe
O que se encontrou é concreto e datável. São treze códices, livros em forma de cadernos costurados, e não rolos, reunindo mais de cinquenta tratados distintos. Estão escritos em copta, a forma final da língua egípcia grafada com letras gregas, mas a maioria é tradução de originais gregos mais antigos.
A datação por carbono e o estudo do papiro de reforço das capas situam a fabricação dos volumes por volta de meados do século IV, entre os anos de 340 e 350.
O conteúdo é o que torna o achado singular. Entre os textos está o Evangelho de Tomé, uma coleção de 114 ditos atribuídos a Jesus, sem narrativa de morte ou ressurreição, só sentenças. Estão também o Evangelho de Filipe, o Apócrifo de João e o Evangelho da Verdade.
Boa parte desse material é classificada como gnóstica: uma corrente cristã primitiva para a qual a salvação vinha de um conhecimento secreto, a gnose, e não da fé institucional. Antes de 1945 esses textos eram conhecidos quase só de segunda mão, pelos ataques que os bispos ortodoxos escreviam contra eles.
Nag Hammadi devolveu as fontes na voz de seus próprios autores.
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"Quem encontrar a interpretação destas palavras não provará a morte." Evangelho de Tomé, dito de abertura, traduzido do códice II de Nag Hammadi.
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O detalhe que liga o achado a um evento histórico está na cronologia. Em 367, o bispo Atanásio de Alexandria enviou uma carta pascal que listava, pela primeira vez, os 27 livros que comporiam o Novo Testamento, e ordenava que os escritos de fora fossem descartados como apócrifos.
As ruínas de um mosteiro pacomiano ficam a poucos quilômetros do local do enterro. A leitura mais aceita pelos pesquisadores é que monges desse mosteiro, com livros agora proibidos na estante, em vez de queimá-los, os esconderam.
A PERGUNTA EM ABERTO
Quem escondeu, e do que tinha medo
O que não se sabe é a intenção exata de quem enterrou o jarro. Esconder não é o mesmo que descartar.
Quem queima um texto quer que ele desapareça; quem o sela num pote de barro e o cobre de terra, ao pé de um penhasco, parece querer protegê-lo, talvez para recuperá-lo quando o clima mudasse, talvez por não suportar destruir um livro que ainda considerava sagrado.
A identidade dos responsáveis, monges dissidentes ou leigos da região, nunca foi confirmada por nenhum documento. O elo com a carta de Atanásio é forte, mas continua circunstancial.
Resta também a pergunta sobre o que se perdeu. Muhammad Ali admitiu mais tarde que parte dos papiros foi usada como combustível no forno de casa antes de alguém perceber o valor do achado. Não há como saber quantas folhas, ou quais textos, viraram fumaça naquele inverno.
O que sobrou, hoje guardado no Museu Copta do Cairo, é uma biblioteca incompleta de uma fé que perdeu a disputa. Alguém a quis viva o bastante para enterrá-la com cuidado, e silenciosa o bastante para não dizer a ninguém onde.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
Mistérios Milenares
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