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Mistérios Milenares

O CASO DO DIA

UM MISTÉRIO EM ABERTO

O guerreiro viking de Birka que era uma mulher

BIRKA · ERA VIKING · GRAU DE MISTÉRIO, ALTO

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Uma mesa de campo à noite dentro de uma tenda de escavação numa ilha do Báltico, com troncos de bétula e a água escura do lago ao fundo, a planta desenhada de uma câmara funerária presa por pesos de latão, vinte e cinco pontas de flecha perfurantes alinhadas sobre um pano de linho ao lado de etiquetas numeradas, um tabuleiro de jogo entalhado com peças de osso na borda da mesa, uma lâmina de machado de ferro e um bocal de lança corroído numa bandeja, tudo sob luz âmbar focal de um lampião

FICHA DO ARQUIVO

Relato: em 1878, uma câmara funerária aberta na ilha de Björkö, na Suécia, recebeu o número Bj 581 e virou o retrato oficial do guerreiro viking, com arsenal completo, dois cavalos arreados e um jogo de tabuleiro no colo do ocupante.

Registro: a revisão dos ossos publicada em 2016 e o sequenciamento genético de 2017 apontaram uma mulher adulta, sem nenhum fragmento de cromossomo Y nas duas amostras testadas.

Anomalia: o esqueleto não tem marca de combate, a crítica aponta risco de troca em cento e quarenta anos de coleção, e ninguém fechou se ela comandou tropa ou apenas recebeu aquelas armas de outra pessoa no enterro.

Em 1878, um arqueólogo sueco abriu uma câmara funerária numa encosta da ilha de Björkö, no lago Mälaren, onde tinha ficado a cidade de Birka. No caderno de campo, a cova recebeu o número Bj 581.

Não era uma vala simples. Era um cômodo de madeira cavado no chão, com o ocupante posto sentado num assento, e uma pedra grande marcando o ponto lá em cima, à vista de quem passasse.

A posição também falava. A câmara ficava num terraço acima da cidade, encostada na guarnição armada de Birka, virada para o porto e para o caminho de quem chegava pela água.

Dentro estava um arsenal completo. Uma espada, um machado, uma faca de combate, duas lanças, dois escudos e vinte e cinco flechas de ponta perfurante, o tipo estreito feito para atravessar malha de ferro.

Havia dois cavalos. Uma égua e um garanhão, arreados, deitados num degrau escavado ao pé da câmara, na parte mais baixa do piso.

E havia um jogo. Um tabuleiro de estratégia com o conjunto completo de peças, posto sobre o colo do ocupante, no lugar mais visível de toda a cena.

O tabuleiro não é enfeite. O hnefatafl é um jogo de cerco, com um lado defendendo um rei no centro e o outro tentando fechar o cerco, e aparece em cova de gente que mandava.

Por mais de cem anos, Bj 581 foi lida como o retrato do guerreiro viking ideal. Virou ilustração de museu, entrou em livro didático e apareceu em quase toda reconstituição de chefe militar do norte.

O sexo do ocupante nunca tinha sido medido no osso. Foi deduzido do inventário, pela regra silenciosa da época: arma na cova, homem na cova.

Nos anos 2010, uma osteóloga da Universidade de Estocolmo revisou o material de Birka guardado em caixas e parou naquele esqueleto. A bacia e o maxilar não combinavam com o laudo herdado.

Em 2017 veio o teste genético. Um dente canino e o úmero esquerdo foram sequenciados, e a leitura não devolveu um único fragmento de cromossomo Y.

Duas cópias do X, nenhum Y. O ocupante do túmulo de guerreiro mais citado da era viking era uma mulher, e o mesmo teste confirmou que as duas amostras vinham da mesma pessoa.

Aí abriu a pergunta que ninguém fechou. Uma coisa é dizer de quem é o corpo, outra é dizer o que aquelas armas faziam ali.

I

O registro

Birka ficava numa ilha do lago Mälaren, a cerca de trinta quilômetros do que hoje é Estocolmo, e foi o maior entreposto comercial da Suécia entre os séculos VIII e X.

O sítio tem mais de três mil covas mapeadas na superfície, e cerca de mil e cem foram abertas por Hjalmar Stolpe entre 1871 e 1895.

Stolpe desenhava a planta de cada câmara. Cada objeto entrava no papel na posição exata em que apareceu, em escala, e é esse desenho que permite refazer a cena cento e quarenta anos depois.

A câmara de Bj 581 tem pouco mais de três metros por menos de dois. O ocupante foi posto sentado, vestido com tecido importado e fio de prata, com um gorro cônico de pingente metálico, peça de tipo oriental.

O conjunto de armas cobre todas as distâncias de combate. Lâmina para o corpo a corpo, machado, lanças para o alcance médio e um feixe de flechas perfurantes para o alcance longo.

As duas montarias reforçam a leitura militar. Cavalo arreado na cova é item de quem se desloca e comanda deslocamento, não item de quem passa a vida parado numa oficina do porto.

A primeira dúvida sobre o esqueleto é antiga. Ainda nos anos 1970 alguém anotou que os ossos pareciam femininos demais para o laudo oficial, e a anotação não mudou nada.

A revisão que pegou é de 2016. Medidas da bacia, do maxilar e dos ossos longos foram publicadas e apontaram para uma mulher adulta, com mais de trinta anos e cerca de um metro e setenta.

O genoma veio no ano seguinte. Publicado em 2017, o estudo comparou a proporção de leituras dos cromossomos sexuais e não encontrou material do Y em nenhuma das duas amostras.

Os isótopos acrescentaram um detalhe de biografia. O estrôncio do esmalte indica que ela não cresceu em Birka e chegou de fora, de uma região com assinatura geológica diferente.

O osso também tem um silêncio. Não há corte de lâmina, não há fratura antiga cicatrizada, não há a marca de combate que se espera de quem passou anos em campo.

O silêncio não fecha nada. Boa parte dos guerreiros comprovados por texto e por contexto também chega ao laboratório sem uma única marca, e o material de Bj 581 está longe de completo.

Um tabuleiro de estratégia no colo, vinte e cinco flechas perfurantes ao lado e nenhuma cicatriz de combate no osso.

A crítica mais dura veio pelo arquivo. Cento e quarenta anos de caixa, mudança de depósito e etiqueta manuscrita abrem espaço para osso trocado entre covas vizinhas.

A resposta saiu em 2019. A equipe refez o caminho do material, cruzou as etiquetas com a planta de campo de Stolpe e com o inventário original, e sustentou a atribuição.

O gorro e o tecido apontam para longe. São peças de contato com o leste, a rota que descia pelos rios até o mar Negro, onde escandinavos serviam como tropa paga.

 
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II

A pergunta em aberto

A pergunta central cabe numa linha. Aquelas armas descrevem o que ela fazia em vida, ou descrevem o que os vivos quiseram dizer sobre ela no dia do enterro.

O chão firme é pequeno e sólido. Os ossos são de uma mulher, a cova é de elite, o inventário é militar do começo ao fim e a planta de escavação é detalhada.

A primeira leitura é a mais direta. Ela comandou gente armada, e o enterro registra a função exercida, do mesmo jeito que registraria num homem posto na mesma câmara.

A leitura tem apoio material. Explica a vizinhança da guarnição, explica o jogo de estratégia no colo, explica as duas montarias e explica o conjunto completo de armas.

O buraco é a ausência de marca no corpo. Nenhum sinal de trauma, nem antigo nem recente, e nada no osso que prove braço de arqueiro ou de espadachim.

A segunda leitura inverte o sentido. O enterro é um discurso dos vivos, e o inventário fala da linhagem, do luto e do status da família, não da biografia de quem foi deitado ali.

O buraco é a seletividade. Em centenas de covas femininas abertas em Birka, nenhuma outra recebeu o pacote militar inteiro, com montaria e tabuleiro, no melhor terreno do sítio.

A terceira leitura fica no meio. Ela teria ocupado um posto de comando ou de guarda por herança, aliança ou riqueza, decidindo sobre gente armada sem precisar entrar na linha de frente.

O buraco é a falta de texto. A escrita sobre mulheres em armas no norte é tardia, feita na Islândia dois ou três séculos depois, e serve de literatura, não de laudo.

A quarta leitura ataca o próprio arquivo. Os ossos analisados não seriam os da câmara, e sim material trocado em algum ponto da longa vida da coleção.

O cruzamento de 2019 empurrou essa versão para o canto, mas não a apagou. Coleção antiga é sempre suspeita, e a confiança final depende de etiqueta escrita à mão em 1878.

Há um detalhe que atravessa as quatro leituras. Durante décadas, a arqueologia decidiu o sexo do ocupante pelo objeto encontrado, e depois usou a contagem dessas covas para provar a mesma regra que tinha aplicado.

O raciocínio anda em círculo. Enquanto arma definir homem por definição, nenhuma cova de mulher armada pode aparecer na estatística, porque ela é reclassificada antes de entrar na conta.

O teste que destravaria o caso existe e é caro. Revisar por DNA as covas com arma de Birka e de outros sítios do norte, em vez de aceitar o laudo herdado do inventário.

O que o exame não devolve é a intenção. Ele diz quem estava na câmara e o que o corpo aguentou, não se ela deu ordem, empunhou a espada ou apenas herdou o direito a um enterro de guerreiro.

Fica a cena do começo, virada do avesso. Hoje é possível ler o cromossomo num dente recolhido em 1878, refazer a planta da câmara e rastrear a origem do tecido do gorro.

O que a cova não devolve é a função. Segue sem resposta se a mulher de Bj 581 comandou uma tropa, se apenas recebeu aquelas armas de outra pessoa no dia do enterro, e por que o túmulo mais reproduzido da arqueologia viking levou cento e trinta e nove anos para ter o osso examinado.

O caso de hoje fica em aberto.

Amanhã, abrimos outro.

 

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