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Em maio de 1891, um grupo de homens cortava turfa num brejo raso do norte da Dinamarca, a pouco mais de um quilômetro do povoado de Gundestrup. O serviço era o de sempre: abrir a camada de musgo, tirar blocos escuros de turfa e empilhar tudo para secar ao vento.
A turfa seca virava combustível de inverno. Ninguém procurava nada ali além de material para queimar, e o terreno não tinha marco, pedra levantada ou qualquer sinal de que houvesse alguma coisa enterrada embaixo.
A pá de um deles bateu em algo duro pouco abaixo de um metro de profundidade. O som não era de pedra. O que apareceu na turfa preta foi metal escurecido, quase negro de tanto óxido, com relevos de figuras aparecendo sob a sujeira.
Não era uma peça só. Era uma tigela grande e funda, e dentro dela um monte de placas curvas empilhadas, encaixadas umas nas outras como pratos guardados no armário.
Contaram treze placas. Cinco compridas, sete curtas e uma redonda, com furos nas bordas por onde antes passavam rebites. Nenhuma tinha amassado de queda. Elas foram separadas da estrutura com jeito e guardadas dentro da própria base.
Limpo o barro, o metal se revelou. Era prata. Quase nove quilos dela, um caldeirão de sessenta e nove centímetros de boca que, montado, subia a quarenta e dois centímetros de altura.
Nas placas havia um homem de chifres de veado sentado de pernas cruzadas, com um torque numa das mãos e uma serpente de cabeça de carneiro na outra. Havia mulheres de tranças com os braços erguidos, cães, grifos, felinos de juba, uma figura montada num golfinho.
E havia elefantes. Bichos de tromba e presa, desenhados por alguém que conhecia a forma geral do animal, saindo de um brejo a milhares de quilômetros de qualquer lugar onde um elefante pudesse ser visto vivo.
Não havia cova aberta, nem urna, nem osso, nem carvão de fogueira. Os cortadores de turfa tinham tirado do pântano a peça de prata mais rica que a Idade do Ferro europeia deixou, e ela estava sozinha ali dentro.
I
O registro
O brejo se chama Rævemose, o pântano da raposa, na freguesia de Aars, região de Himmerland, no norte da Jutlândia. O achado foi registrado em vinte e oito de maio de 1891, e a peça foi parar no Museu Nacional da Dinamarca, em Copenhague, onde continua exposta.
As medidas são conhecidas ao milímetro. Quase nove quilos de prata de alto teor, sessenta e nove centímetros de diâmetro, quarenta e dois de altura com tudo montado. Partes do relevo receberam folha de ouro, e alguns olhos de figura foram preenchidos com pasta de vidro.
As treze peças se dividem em três grupos. Uma placa redonda de fundo, com um touro de corpo inteiro no centro. Cinco placas internas, maiores, com cenas de figuras e animais. E sete placas externas, cada uma ocupada por um busto de tamanho grande.
As externas são o problema aritmético do conjunto. Sete não fecham a volta de um caldeirão daquele diâmetro. A conta pede oito, e a oitava placa nunca apareceu, nem no brejo nem em qualquer coleção conhecida.
A técnica é repuxada de dentro para fora, com o desenho martelado no avesso da chapa e o acabamento feito por cima, a punção. É trabalho de ourives de prata treinado, com repertório de ferramenta próprio, não improviso de ferreiro de aldeia.
A datação mais aceita joga a fabricação entre o século dois e o século um antes de Cristo, no fim do período que os arqueólogos chamam de La Tène. Algumas leituras esticam o prazo até o século um depois de Cristo, e a discussão nunca fechou.
Parte do que está desenhado é reconhecidamente céltico. O carnyx, trombeta de guerra alta com bocal em forma de cabeça de javali, aparece em fila. Aparecem torques no pescoço e na mão das figuras, capacete com cimeira de animal e uma roda segurada por um gigante.
Outra parte não tem endereço no norte. Elefantes, felinos de juba, grifos, uma figura montada num golfinho, mulheres com penteado e adorno que nenhuma sepultura escandinava daquele tempo apresenta.
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Não havia cova, não havia urna, não havia osso. Só nove quilos de prata desmontados e cobertos por musgo.
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O estilo de execução é o dado mais incômodo. O jeito de bater a prata, de encher a cena até a borda e de tratar cabelo, olho e músculo aponta para as oficinas de ourivesaria dos Bálcãs, o repertório trácio do baixo Danúbio.
No norte da Europa daquele momento a prata quase não circulava. O metal do dia a dia era bronze e ferro, e não existe oficina escandinava conhecida capaz de produzir uma peça de prata desse porte e desse acabamento.
A análise de isótopos de chumbo na liga apontou prata de mais de uma procedência, misturada num lote só. É o resultado esperado de metal reciclado, moeda e objeto derretidos juntos, o que embaralha qualquer tentativa de apontar a mina de origem.
O estudo do próprio pântano acrescentou um detalhe. A camada onde o caldeirão estava era de turfa firme, e o brejo cresceu por cima depois. A peça foi apoiada em chão que dava para pisar, não afundada em água aberta.
O detalhe importa porque muda o verbo. Não foi coisa que caiu, escorregou ou se perdeu em travessia. Foi levada até ali, desmontada, empilhada e deixada, e o terreno se fechou por cima ao longo dos séculos seguintes.
II
A pergunta em aberto
A pergunta central tem três andares. Quem trabalhou aquela prata, como a peça atravessou o continente até um brejo da Jutlândia e por que foi entregue a um pântano em vez de a um túmulo.
O que se sabe é firme. A peça existe, está medida, pesada e analisada. O ponto do achado está registrado. As cenas estão descritas placa a placa, e o repertório mistura sinais célticos com execução de oficina do sudeste europeu.
A primeira leitura entrega a fabricação aos Bálcãs. Ourives trácios trabalhando por encomenda para clientes celtas instalados no vale do Danúbio, os escordiscos, o que explicaria de uma vez o estilo do metal e o vocabulário das figuras.
Nessa leitura falta o trecho da viagem. Do Danúbio ao norte da Jutlândia são milhares de quilômetros, e a peça teria mudado de mão como saque, presente diplomático, dote ou pagamento, sem nenhum registro que ateste a rota.
Há um candidato tentador para o transporte. Himmerland, a região do achado, carrega o nome dos cimbros, povo que desceu para o sul e cruzou os Bálcãs entre o fim do século dois e o começo do século um antes de Cristo, antes de ser desbaratado na Itália.
A segunda leitura inverte a origem. A peça teria sido feita no ocidente celta, na Gália, por artesão formado na tradição do sul. O obstáculo é a ausência de oficina, de peça irmã e de qualquer prata comparável naquela área.
O estado em que o caldeirão apareceu tem duas explicações concorrentes. Uma diz que a peça viajou desmontada, porque treze placas planas empilhadas cabem num fardo de carga, e um caldeirão montado de setenta centímetros não cabe.
A outra diz que desmontar era parte do rito. No norte da Europa da Idade do Ferro, objeto de valor entregue a um brejo costuma aparecer dobrado, partido ou desmembrado, tirado de uso de propósito antes de ser depositado.
Depósito em pântano não é descarte por lá. Armas em lote, carroças inteiras, potes de comida e enxovais completos aparecem em turfeiras dinamarquesas com regularidade suficiente para configurar prática, não acidente.
O que trava tudo é a falta de texto. Não há inscrição na prata, não há escrita da época que cite a peça, e não havia nenhum outro objeto ao lado no brejo capaz de datar a deposição por associação.
A oitava placa ausente é o detalhe que mais mexe com a cabeça de quem estuda o conjunto. Ela pode ter ficado para trás na viagem, pode ter sido retirada de propósito antes da entrega ou pode nunca ter existido.
Fica a cena do começo, invertida. Uma pá de turfa achou em 1891 um objeto que ninguém tinha procurado, e mais de um século de análise de liga, de estilo e de pólen respondeu quanto pesa, como foi feito e quando foi deixado ali.
O que a análise não devolveu foi o nome. Segue sem resposta quem bateu aquela prata, por qual estrada ela subiu até o norte e o que alguém quis resolver ao empilhar treze placas dentro da própria base e cobrir tudo de musgo.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
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