Mistérios Milenares #005 · O tesouro que só um texto consegue encontrar
Mistérios Milenares

DOSSIE No 005

O MISTERIO DA SEMANA

O tesouro que só um texto consegue encontrar

VIRGÍNIA, EUA · 1885 · GRAU DE MISTÉRIO, ALTO

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O tesouro que só um texto consegue encontrar

Em 1885, um panfleto de 23 páginas foi publicado em Lynchburg, Virgínia, sob o título The Beale Papers. Não trazia nome de autor na capa. Foi atribuído a um certo James B. Ward, sobre quem quase nada se sabe além do nome. O panfleto contava a seguinte história: por volta de 1820, um homem chamado Thomas J. Beale teria deixado uma caixa trancada aos cuidados de um estalajadeiro de Lynchburg chamado Robert Morriss. Dentro da caixa, três folhas com colunas de números. Cada folha era um texto cifrado. Os três textos juntos indicariam a localização, o conteúdo e os nomes dos herdeiros legítimos de um tesouro enterrado em algum ponto do condado de Bedford, Virgínia.

O valor estimado do tesouro, segundo o panfleto: ouro, prata e joias equivalentes a cerca de 20 milhões de dólares em valores da época.

I

Abertura do Dossiê

Os três textos cifrados são sequências de números inteiros, sem espaçamento ou pontuação consistente, que variam de 1 a 2906. O primeiro texto contém 520 números e supostamente descreve a localização exata do tesouro. O segundo, 763 números, descreve o conteúdo do depósito. O terceiro, 618 números, lista os nomes e endereços dos herdeiros legítimos.

O segundo texto foi decifrado. A chave era a Declaração de Independência dos Estados Unidos. Cada número corresponde à posição de uma palavra na Declaração, e a primeira letra de cada palavra, na sequência, forma a mensagem. O texto decifrado diz, resumidamente: "Depositei no condado de Bedford, Virgínia, a cerca de quatro milhas de Buford's Tavern, num cofre escavado a seis pés de profundidade", seguido de uma lista detalhada de quantidades de ouro e prata, medidas em libras, e joias obtidas em Santa Fé durante uma expedição ao Oeste.

Os textos 1 e 3 permanecem sem solução. Se o texto 2 usou a Declaração de Independência como chave, a suposição lógica é que os outros dois usam documentos públicos similares. Criptógrafos profissionais e amadores testaram centenas de textos candidatos: a Constituição, a Carta Magna, a Bíblia King James, discursos presidenciais, documentos legislativos da Virgínia. Nenhum funcionou.

"Depositei no condado de Bedford, Virgínia, a cerca de quatro milhas de Buford's Tavern, num cofre escavado a seis pés de profundidade." Trecho decifrado do Texto 2 das Cifras de Beale.

II

Contexto Histórico

A história narrada pelo panfleto é detalhada o suficiente para parecer verossímil, mas vaga o suficiente para não ser verificável. Segundo o relato, Thomas Beale era um fazendeiro da Virgínia que, em 1817, partiu com um grupo de trinta homens para uma expedição de caça nas Grandes Planícies. No atual Novo México, o grupo teria encontrado um veio de ouro e minas de prata, extraído o material ao longo de dois anos e retornado à Virgínia para enterrar o tesouro.

Beale teria confiado a caixa ao estalajadeiro Morriss em 1822, com instruções para abri-la caso ele não retornasse em dez anos. Beale nunca voltou. Morriss esperou mais de vinte anos antes de abrir a caixa. Encontrou os textos cifrados, tentou decifrá-los sem sucesso e, antes de morrer em 1863, passou o material para um amigo, identificado no panfleto apenas como "o autor". Esse autor teria gasto anos tentando resolver os textos, decifrado apenas o segundo, e publicado o panfleto em 1885 na esperança de que alguém com mais sorte completasse o trabalho.

O problema histórico: não há nenhum registro independente de Thomas J. Beale, de Robert Morriss (na grafia do panfleto) ou da expedição de trinta homens ao Novo México. Nenhum jornal de Lynchburg entre 1817 e 1825 menciona a chegada ou a partida de um grupo desse porte. Nenhum registro de posse de terras ou de transações comerciais no condado de Bedford confirma a existência de um depósito. O censo e os registros paroquiais de Lynchburg não contêm ninguém com o nome exato grafado no panfleto.

III

O que as Evidências Mostram

A análise criptográfica dos textos produziu resultados contraditórios. Em 1970, o criptógrafo Carl Hammer, na época diretor de ciência da computação da Univac, conduziu uma das primeiras análises computadorizadas e concluiu que os textos exibiam padrões estatísticos consistentes com um ciframento real sobre uma língua natural, não com números aleatórios gerados para simular um código. A análise de frequência dos números sugere estrutura subjacente.

Por outro lado, Jim Gillogly, membro da American Cryptogram Association, publicou em 1980 uma análise que encontrou padrões residuais no texto 1 que poderiam indicar erro deliberado de cifragem, como se alguém tivesse fabricado o texto usando a Declaração de Independência de forma inconsistente e depois embaralhado os números para esconder a manipulação. A análise de Gillogly não prova que é um hoax, mas levanta a possibilidade de que os textos 1 e 3 tenham sido construídos para parecer cifrados sem conter informação real.

A questão do hoax é central. O panfleto foi vendido a 50 centavos em 1885, valor considerável para a época, e a motivação comercial é plausível. O historiador Joe Nickell investigou a proveniência em Unsolved! (2005) e apontou que a linguagem, o estilo retórico e certos anacronismos do panfleto são mais consistentes com um texto escrito inteiramente na década de 1880 do que com a transcrição fiel de eventos dos anos 1820. A expressão "stampede" referindo-se a bois, por exemplo, só se tornou comum em inglês americano depois de 1840.

Ainda assim, a decifração do texto 2 é real. A Declaração de Independência funciona como chave. O texto resultante é gramaticalmente correto, internamente consistente e descreve quantidades específicas de metal. Se o objetivo fosse apenas vender panfletos, bastaria publicar três textos indecifráveis. Decifrar um deles foi um investimento enorme de trabalho para um golpista. A questão é: por que se dar ao trabalho de cifrar um texto coerente se o tesouro é falso?

IV

A Pergunta em Aberto

Dois cenários permanecem abertos. O primeiro: o tesouro é real, os textos são genuínos, e a chave dos textos 1 e 3 ainda não foi encontrada. Neste cenário, o ouro e a prata de Beale estão a seis pés de profundidade em algum lugar do condado de Bedford, esperando alguém que encontre o documento certo. O problema: 140 anos de buscas, incluindo escavações sistemáticas com detectores de metal no condado de Bedford, não produziram nada.

O segundo cenário: o panfleto é uma fraude literária sofisticada dos anos 1880. O texto 2 foi cifrado de verdade para dar credibilidade ao conjunto, enquanto os textos 1 e 3 são ruído construído para parecer código sem conter informação decifrável. Neste cenário, não existe tesouro, não existiu Beale, e o autor do panfleto embolsou o dinheiro das vendas e morreu sem confessar.

A evidência disponível não permite descartar nenhum dos dois. A NSA incluiu as cifras de Beale em seu acervo interno de desafios criptográficos nos anos 1970 e, segundo registros obtidos via FOIA por pesquisadores independentes, não conseguiu decifrar os textos 1 e 3. Se a agência com os maiores recursos computacionais do mundo não conseguiu, ou os textos são cifrados com uma chave genuinamente desconhecida, ou não há nada para decifrar.

O condado de Bedford continua pacato. A Buford's Tavern não existe mais. As colunas de números repousam em centenas de livros e sites, copiadas e recopiadas, testadas contra cada documento público que alguém consegue imaginar. De vez em quando, um amador anuncia ter encontrado a chave. Até agora, nenhum trouxe ouro.

O dossiê desta semana fica em aberto.

 

☞ Quiz da edição

Verdadeiro ou Falso: O segundo texto cifrado de Beale foi decifrado usando a Declaração de Independência dos Estados Unidos como chave, onde cada número corresponde à posição de uma palavra no documento.

VVerdadeiro FFalso

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