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A última carta saiu de Ugarit sem ser despachada. O rei escreveu ao soberano de Chipre que sete navios inimigos haviam chegado, queimado suas cidades e feito coisas terríveis em seu território. Pediu socorro. O tablete de argila com o pedido foi encontrado dentro de um forno, ainda cozinhando, quando a cidade pegou fogo. Ninguém viveu para enviá-lo. Ugarit nunca mais foi habitada.
Em poucas décadas em torno de 1177 a.C., o que aconteceu com Ugarit aconteceu com quase todo o Mediterrâneo oriental. Os hititas, os micênicos, as cidades do Levante e os centros de Chipre desabaram quase ao mesmo tempo.
Palácios foram incendiados, rotas de comércio se romperam, sistemas inteiros de escrita desapareceram. Foi o fim de um mundo interconectado que levara séculos para se montar. E a arqueologia ainda discute por quê.
I
O registro
A Idade do Bronze tardia era um sistema globalizado antes da palavra existir. Egito, o império hitita na Anatólia (Hatti), os reinos micênicos da Grécia, a Babilônia, Assíria, Chipre e cidades-Estado como Ugarit trocavam cobre, estanho, ouro, marfim e correspondência diplomática.
As cartas de Amarna (séculos XIV a.C.) mostram reis se tratando por "irmão". O bronze, liga que dava nome à era, exigia estanho de fontes distantes, então nenhuma corte sobrevivia sozinha. Essa interdependência era a força do sistema e seria a sua fraqueza.
O documento mais citado é o relevo de Ramessés III no templo de Medinet Habu, no Egito, datado do oitavo ano de seu reinado (por volta de 1177 a.C.).
A inscrição descreve uma confederação de povos vindos do mar e das ilhas que, segundo o texto, já havia varrido Hatti, Karkemish, Arzawa e Chipre antes de chegar ao Egito. Ramessés afirma tê-los detido na fronteira.
São os chamados Povos do Mar, e quem eram, de onde vinham e se eram uma causa ou apenas um sintoma do caos continua em disputa.
A camada arqueológica conta a parte que os textos não contam. Hattusa, a capital hitita, foi abandonada e queimada. Micenas, Tirinto e Pilos, no continente grego, foram destruídas, e a escrita Linear B sumiu com elas. Ugarit virou cinza.
Em sítio após sítio, escavadores encontram a mesma assinatura: incêndio, abandono, e nenhuma reconstrução por gerações. O que está em aberto não é se houve colapso. É a causa.
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"Sete navios inimigos chegaram e fizeram coisas terríveis." Última tábua de Ugarit, encontrada num forno, por volta de 1190 a 1185 a.C.
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Quatro explicações disputam o caso, e cada uma tem evidência a favor e furos contra. A primeira são os Povos do Mar, mas culpar invasores esbarra num problema: invasores costumam ocupar o que conquistam, e aqui as cidades foram queimadas e deixadas vazias. A segunda é a seca.
Núcleos de pólen retirados do mar da Galileia e de sedimentos em Chipre indicam um período prolongado de aridez e queda de chuvas justamente no fim do Bronze, um evento climático por volta de 1200 a.C. que teria estrangulado as colheitas.
A terceira é sísmica: geólogos identificaram uma sequência de terremotos fortes na região no intervalo de cerca de cinquenta anos, uma "tempestade de terremotos" que pode ter derrubado muralhas já enfraquecidas.
A quarta, e a que mais ganhou força entre os pesquisadores, não escolhe um culpado: é a hipótese de falha sistêmica em cadeia, em que seca, terremotos, migrações, revoltas internas e o rompimento das rotas de comércio se realimentaram até que a rede inteira, justamente por ser tão integrada, desmontou junto.
II
A pergunta em aberto
O que ninguém consegue provar é a ordem dos fatos. Se a seca veio primeiro e empurrou populações famintas para o mar como os Povos do Mar. Se os terremotos abriram as primeiras brechas e o resto desabou atrás.
Se houve um gatilho único ou se cada região caiu pela sua própria razão, dando a ilusão de uma catástrofe coordenada quando foram muitas catástrofes próximas no tempo. As datas de carbono têm margem de décadas, e décadas, numa janela tão curta, são o suficiente para inverter causa e efeito.
A hipótese sistêmica é a mais aceita hoje, mas ela tem um custo intelectual desconfortável: explica tudo sem apontar nada. Dizer que "o sistema falhou em cadeia" é descrever o colapso, não a sua origem. E é por isso que o caso continua aberto. Sabemos com precisão o que ruiu, em que ordem aproximada e com que violência. Não sabemos qual foi o primeiro dominó.
O que se sabe é o tamanho da perda. Depois de 1177 a.C., grande parte do Mediterrâneo oriental entrou em séculos de silêncio. A escrita desapareceu em várias regiões, as cidades grandes não voltaram, e a memória do mundo interconectado que existira antes só sobreviveu como mito.
Quando a luz volta, séculos depois, é outro mundo. O que derrubou o primeiro continua dentro daquele forno de Ugarit, num pedido de socorro que nunca foi enviado.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
Mistérios Milenares
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