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3 de julho de 1908, ruínas do palácio minoico de Festos, no sul de Creta. O arqueólogo italiano Luigi Pernier escavava um depósito de tijolos de barro quando tirou da terra um disco. Argila cozida, redondo, do tamanho aproximado de um pires, com cerca de dezesseis centímetros de diâmetro.
Os dois lados estavam cobertos de pequenas figuras: uma cabeça com penas, um peixe, um barco, uma pessoa caminhando, um escudo. As marcas corriam em espiral, da borda para o centro, separadas em grupos por linhas verticais.
Pernier percebeu rápido o que tinha nas mãos. Aqueles sinais não foram riscados na argila com um estilete, como toda a escrita antiga conhecida da região. Cada figura tinha sido prensada com um selo, um carimbo, apertado contra o barro mole antes de o disco ir ao forno.
O mesmo símbolo se repetia, idêntico, várias vezes. Alguém havia fabricado um conjunto de selos e os usado para imprimir um texto. Em torno de 1700 a.C.
O REGISTRO
O que se sabe
O objeto ficou conhecido como Disco de Festos. A datação vem do contexto da escavação, a camada e os materiais associados, e situa o disco por volta de 1700 a.C., no auge da civilização minoica de Creta. Ele está hoje no Museu Arqueológico de Heráclion, e é uma das peças mais visitadas da arqueologia do Egeu.
O que se conta nele é exato. São 241 símbolos impressos, distribuídos entre as duas faces, organizados em espiral e agrupados em 61 blocos por traços divisórios, provavelmente palavras. Desse total, há 45 sinais distintos que se repetem em combinações diferentes.
Esse número é a chave para entender o que o disco provavelmente é: 45 sinais são poucos demais para uma escrita em que cada símbolo represente uma ideia inteira, e muitos demais para um alfabeto de letras isoladas.
O intervalo bate com um silabário, um sistema em que cada sinal vale uma sílaba. É o mesmo princípio do Linear B, a escrita micênica que Michael Ventris decifrou em 1952. A diferença é que o Linear B foi lido, e o disco não.
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Mil anos antes da escrita alfabética grega e mais de três mil anos antes de Gutenberg, alguém já tinha a ideia central da tipografia: peças padronizadas que se combinam para formar um texto.
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O detalhe que faz dele uma anomalia técnica é o método. Cada sinal foi estampado com um punção próprio, um carimbo reutilizável feito de antemão. Pelo que se conhece da Antiguidade, o Disco de Festos é o exemplar mais antigo de impressão por tipos repetíveis que chegou até nós.
Não foi um sistema que vingou nem se espalhou. Foi, ao que tudo indica, um objeto único.
E aqui o registro encontra seu limite. Sabemos como foi feito, onde, mais ou menos quando, e quantos sinais tem. Não sabemos o que ele diz. Nenhuma das 61 sequências foi lida com qualquer consenso.
A PERGUNTA EM ABERTO
O que ainda não tem resposta
O que trava a decifração não é falta de esforço. É falta de material.
Decifrar uma escrita desconhecida costuma exigir duas coisas: um corpus grande, com muitas repetições para mapear padrões, e de preferência um texto bilíngue, o mesmo conteúdo em uma língua já conhecida, como foi a Pedra de Roseta para os hieróglifos egípcios. O Disco de Festos não oferece nenhuma das duas.
São apenas 241 símbolos, um texto curtíssimo, sem nenhum outro objeto que use o mesmo sistema de sinais de forma indiscutível. Um único documento, isolado, numa escrita que não aparece em mais lugar nenhum com clareza.
Sem corpus e sem bilíngue, qualquer leitura proposta é, na prática, indemonstrável. Não faltaram tentativas. Já interpretaram o disco como um hino religioso, uma lista de lugares, um calendário, uma oração a uma deusa, um chamado às armas.
Cada proposta encaixa os sinais de um jeito plausível e nenhuma pode ser confirmada ou refutada, porque não há um segundo texto para testar a hipótese.
Há ainda quem levante, de tempos em tempos, a possibilidade de o disco ser uma fabricação moderna, mas a maioria dos especialistas trata o objeto como autêntico, pela coerência com o contexto da escavação de 1908.
Existe uma saída teórica conhecida: achar outro objeto com a mesma escrita, de preferência mais longo, ou um par bilíngue. Enquanto a terra de Creta não devolver essa segunda peça, o disco permanece o que é desde 1908.
Um texto impresso, completo, em perfeito estado, que diz alguma coisa muito específica para alguém, há quase quatro mil anos, e que continua mudo diante de todos os que tentam ouvi-lo.
O caso de hoje fica em aberto.
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