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Uma civilização de cinco milhões de pessoas escreveu milhares de inscrições e nenhuma com mais de cinco símbolos. É como achar uma biblioteca onde toda frase foi cortada no início, e isso me inquieta profundamente. O dossiê de hoje tenta ler o que sobrou.
É uma plaqueta de pedra-sabão, quadrada, do tamanho de um polegar. Numa face, talhado em baixo relevo, há um touro de corcova, e acima dele uma fileira de sinais: uns parecem peixes, outros lembram tridentes, lanças, vasos, traços verticais empilhados. São cinco sinais. Só cinco.
A peça foi feita por volta de 2600 a.C. por alguém que vivia em uma cidade planejada, com ruas em quadrícula, esgoto encanado e celeiros, parte de uma população que pode ter chegado a cinco milhões de pessoas.
Aquela fileira de sinais é escrita. Quase ninguém duvida disso. O problema é que, depois de mais de um século de tentativas, ninguém no mundo sabe o que ela diz.
I
O registro
A civilização ficou conhecida como Vale do Indo, ou cultura de Harappa, pelo nome do primeiro grande sítio escavado. Espalhou-se por uma área enorme, do atual Paquistão ao noroeste da Índia, ao longo dos rios Indo e Sarasvati.
As escavações sistemáticas começaram na década de 1920, em Harappa e Mohenjo-daro, e revelaram algo que ninguém esperava para aquela época: cidades de tijolo cozido com saneamento, pesos e medidas padronizados, comércio que chegava à Mesopotâmia. Uma civilização urbana à altura do Egito e da Suméria, contemporânea das pirâmides.
E, espalhados por essas cidades, os sinais. Eles aparecem sobretudo em selos: pequenas plaquetas de esteatita usadas, ao que tudo indica, para marcar mercadorias e identificar quem as enviava. Também surgem em tabuletas, em cerâmica, em peças de cobre. Até hoje foram catalogados mais de quatro mil objetos inscritos.
O obstáculo está na própria natureza desse material. As inscrições são curtíssimas. A média é de cinco sinais por peça. A mais longa que se conhece tem dezessete. Não existe um único texto contínuo: nenhuma carta, nenhuma lei, nenhum hino, nada que se estenda por linhas e parágrafos. É como tentar reconstruir um idioma inteiro tendo em mãos apenas etiquetas de bagagem.
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Sem um texto bilíngue, decifrar a escrita do Indo é tentar abrir uma fechadura sem nunca ter visto a chave. É o impasse que paralisa o campo há um século.
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O que está documentado é isto: existem cerca de 400 a 450 sinais distintos, número alto demais para um alfabeto puro, baixo demais para uma escrita puramente pictográfica como o chinês arcaico. Isso aponta para um sistema misto, com sinais que valeriam por sílabas e outros por palavras inteiras.
A direção da leitura, na maioria dos casos, parece ser da direita para a esquerda, deduzida pela forma como os sinais se comprimem nas bordas. Até aí, são inferências sólidas. O resto é hipótese, e convém separar as duas coisas.
II
A pergunta em aberto
O que falta para ler o Indo não é engenho. É uma ponte.
Toda decifração conhecida da Antiguidade dependeu de um ponto de apoio externo. O egípcio caiu quando a Pedra de Roseta trouxe o mesmo decreto em grego, demótico e hieróglifo, e um nome conhecido serviu de gancho. O persa antigo abriu caminho pelas inscrições reais que repetiam fórmulas já entendidas.
O linear B foi quebrado quando se provou que a língua por trás dele era uma forma arcaica de grego. Em todos os casos, havia ou um texto bilíngue, ou uma língua conhecida por baixo dos sinais.
A escrita do Indo não tem nenhum dos dois. Não há Pedra de Roseta. Nunca se achou uma inscrição que repetisse, em escrita já lida, o que os selos dizem. E, pior, ninguém sabe que língua eles registram.
As hipóteses mais discutidas a ligam às línguas dravídicas, faladas hoje sobretudo no sul da Índia, mas a proposta não tem prova decisiva, e há quem defenda parentes do indo-ariano, ou uma língua perdida sem descendentes vivos. Sem saber a língua, atribuir som a cada sinal vira um chute informado.
Há ainda uma dúvida mais radical, levantada por alguns pesquisadores: e se aqueles sinais não forem escrita no sentido pleno, e sim um sistema de símbolos de marcação, mais perto de brasões ou etiquetas de propriedade do que de linguagem?
A análise estatística da frequência e da ordem dos sinais sugere que há regras, uma sintaxe, padrões que se repetem como em um idioma. Mas a brevidade das inscrições impede a prova final.
O argumento gira em círculo: os textos são curtos demais para decifrar, e curtos demais para confirmar que são, de fato, textos.
E assim segue. Cinco milhões de pessoas, mil e quinhentos sítios, séculos de uma das mais sofisticadas civilizações urbanas que a Idade do Bronze produziu, e o registro escrito que deixaram permanece um som que não se pronuncia.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
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