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Mais de quatrocentas esferas de granito talhadas com precisão geométrica e nenhuma função conhecida. O Neolítico escocês não desperdiçava semanas de trabalho à toa, e é isso que me intriga. O dossiê de hoje cabe na palma da mão.
Cabe na palma da mão. Uma bola de pedra do tamanho de uma laranja, dura como granito porque é granito, com a superfície coberta de saliências arredondadas que se repetem em intervalos regulares, como se um padrão tivesse sido pensado antes de a primeira batida cair sobre a pedra.
Quem a segura sente um objeto acabado, simétrico, deliberado. Quem a estuda esbarra logo numa parede: ninguém sabe para que ela servia.
Há mais de quatrocentas como essa, espalhadas por museus e coleções da Escócia. Foram esculpidas há cerca de cinco mil anos, antes da pirâmide de Gizé, por pessoas que não deixaram escrita. E depois de mais de um século de estudo, a função desses objetos continua sendo a única coisa que ninguém conseguiu provar.
I
O registro
As peças são conhecidas como bolas de pedra esculpidas, e a esmagadora maioria vem do nordeste da Escócia, concentrada na região de Aberdeenshire. São esferas de cerca de sete centímetros de diâmetro, talhadas em granito, arenito, gabro e outras pedras duras.
A datação as coloca no Neolítico tardio e início da Idade do Bronze, grosso modo entre 3200 e 2500 a.C., a mesma janela em que se erguiam os grandes círculos de pedra das ilhas britânicas.
O que torna cada peça notável é o acabamento. Sobre a superfície foram talhadas saliências geométricas, os chamados knobs, distribuídas com regularidade que beira a obsessão. Algumas bolas têm apenas três ou quatro; outras chegam a mais de cento e sessenta.
Um exemplar célebre, a bola de Towie, traz quatro saliências cobertas de espirais e linhas gravadas, um trabalho fino que exigiu horas de talho cego numa pedra que não perdoa erro.
Várias das peças apresentam arranjos que correspondem a sólidos simétricos, com as saliências dispostas como os vértices de figuras regulares.
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A maioria das bolas não mostra desgaste de uso. Não estão lascadas como ferramentas, não estão polidas como pesos manuseados todo dia. Foram feitas com enorme cuidado e, ao que tudo indica, quase não foram usadas para nada.
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O que está documentado é isto: as peças existem em quantidade, a datação se sustenta, e a técnica é sofisticada para a época. O resto é hipótese, e convém separar as duas coisas. Quase nenhuma foi encontrada em contexto seguro de escavação.
Apareceram soltas em campos, recolhidas por agricultores, doadas a museus sem registro de onde exatamente saíram do solo. Sem tumba associada, sem casa, sem oficina, falta o entorno que normalmente diz a um arqueólogo o que um objeto significava para quem o fez.
As bolas chegaram até nós como respostas sem a pergunta.
II
A pergunta em aberto
A questão não é como foram feitas. É por quê.
As hipóteses já levantadas formam uma lista longa e nenhuma fecha. Pesos para balança? As bolas têm massas variadas demais, e não se encontram conjuntos padronizados que sugiram um sistema de medida. Armas de arremesso, ou cabeças de maça presas a um cabo?
O acabamento delicado, sem marcas de impacto, joga contra a ideia de algo lançado contra alvos. Símbolos de status passados de mão em mão por chefes e xamãs? Plausível, mas é uma leitura que a falta de contexto não confirma nem descarta.
Objetos rituais, brinquedos, peças usadas para rolar troncos pesados, talismãs: cada teoria explica uma parte e tropeça em outra.
E há o detalhe que mais incomoda. O cuidado investido em algumas dessas bolas é desproporcional a qualquer uso prático banal.
Gravar espirais em quatro saliências de uma esfera de granito, com ferramentas de pedra, é trabalho de quem quer que o objeto seja exatamente daquele jeito, e não de quem precisa apenas de um peso ou de um projétil.
Alguém numa comunidade neolítica decidiu que valia a pena gastar dias nisso. Por motivo nenhum que a arqueologia tenha conseguido recuperar.
Mais de quatrocentas sobreviveram, e ainda assim falta a única peça que tornaria o conjunto legível: uma única que tivesse sido enterrada com seu dono, ou deixada no chão de uma casa, ou marcada com algo que dissesse o que era. Elas estão todas ali, perfeitas, simétricas, mudas. O que essas pessoas seguravam na mão continua em branco.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
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