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No inverno de 1890, garimpeiros que procuravam ouro num pântano de turfa em Shigir, nos Montes Urais, perto da atual cidade de Ecaterimburgo, cavaram cerca de quatro metros de profundidade e bateram em madeira. Puxaram para a superfície pedaços escuros e pesados, cobertos de entalhes, e a primeira reação foi tratar aquilo como estorvo, resto de tronco atravancando a lavra.
A turfa tinha guardado a peça. Um pântano desses é ácido, frio e quase sem oxigênio, o tipo de ambiente em que a madeira não apodrece e atravessa milênios praticamente intacta. Os fragmentos eram de lariço, uma conífera dura, e traziam rostos e fileiras de linhas gravadas que ninguém soube explicar ali na beira da vala.
Levados ao museu regional, os pedaços foram montados como um quebra-cabeça e revelaram uma única figura, uma prancha esguia de mais de cinco metros de altura, alta como um prédio de dois andares. Um pesquisador local registrou o conjunto num desenho detalhado em 1914, quando a peça ainda estava completa.
Depois disso, parte da base se perdeu. O que sobrou hoje soma pouco mais de três metros de madeira original, e o trecho desaparecido só é conhecido por aquele desenho antigo. A figura chegou até nós mutilada, e mesmo assim segue sendo a maior e a mais antiga escultura de madeira que já se encontrou.
Por décadas, ninguém soube ao certo quão velha era a peça. Presumia-se que fosse antiga, milhares de anos, mas sem uma cifra que se sustentasse, e a madeira escura ficou numa vitrine em Ecaterimburgo como uma curiosidade regional. A idade verdadeira, a que muda tudo, permaneceu escondida à vista de todos por mais de um século.
I
O registro
Os fatos duros começam pela idade. Por muito tempo o ídolo passou por antigo sem número firme, até que exames de radiocarbono no fim do século XX e novas medições em laboratório empurraram a data para cerca de doze mil anos. É o dobro da idade de Stonehenge e das pirâmides do Egito, que têm em torno de cinco mil.
Segue o material, e ele explica o milagre da conservação. O corpo é um único tronco de lariço partido no sentido do comprimento, esculpido com ferramentas de pedra e, pelas marcas, também com uma lâmina feita de mandíbula de castor. A turfa selou a madeira longe do ar e das bactérias, e por isso os traços de doze mil anos atrás continuam nítidos.
Vem então a superfície, e aqui está o enigma. Toda a extensão da prancha é coberta por rostos e por fileiras de sinais geométricos, ziguezagues, traços e formas que se repetem em ritmo, como se compusessem linhas de um texto. Contam-se ao menos sete faces talhadas, uma no topo, em relevo, e as demais espalhadas pelo corpo.
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Uma escultura mais velha que a agricultura e a escrita, coberta de sinais que parecem uma mensagem organizada. Doze mil anos depois, ninguém sabe se é oração, mapa, mito ou aviso.
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E há o registro que quase se perdeu junto com a base. O desenho de 1914 guardou trechos que hoje já não existem no original, incluindo linhas de sinais da parte inferior que sumiu. Boa parte do que se discute sobre a peça inteira depende daquele traço a lápis, feito por um observador que a viu completa antes de o tempo levar um pedaço.
Some a técnica, que não combina com a imagem que se costuma ter de caçadores da Idade da Pedra. Erguer e entalhar um monumento de cinco metros exige planejar a peça, escolher a árvore, cortar, transportar e trabalhar a madeira com um projeto na cabeça. Não é rabisco ocioso, é obra pensada do começo ao fim.
E some a época. O ídolo foi feito logo depois do fim da última era glacial, por gente que vivia de caça e coleta, sem plantações, sem cidades, sem qualquer sistema de escrita conhecido. É justamente o período em que se supunha que ninguém ainda produzia arte monumental, e a prancha de Shigir derruba essa suposição sozinha.
II
A pergunta em aberto
A pergunta central tem duas metades e nenhuma das duas fechou. O que os sinais gravados de fato dizem, e como um povo anterior à escrita e à agricultura concebeu e ergueu uma escultura desse tamanho. Significado e autoria, os dois pontos em aberto.
O que se pode afirmar com segurança já não é pouco. Sabemos a idade, o material, o número de faces e o padrão repetido dos sinais. Dá para descrever cada rosto, medir cada traço, mapear a sequência dos ziguezagues ao longo do corpo. O inventário está de pé, completo e conferido.
O que falta é a leitura. Os sinais têm regularidade suficiente para não parecerem enfeite aleatório, mas não há nenhum outro objeto com a mesma escrita para servir de comparação. Sem um segundo exemplo, sem repetição, não existe como cruzar um símbolo com outro e deduzir o que ele quer dizer.
As hipóteses sobre o conteúdo se acumulam sem que nenhuma feche. Já se propôs que as faces representem espíritos da floresta, que as linhas marquem uma fronteira entre o mundo dos vivos e o dos mortos, que o conjunto seja um mito de origem gravado em madeira. Todas cabem no objeto, e nenhuma pode ser testada.
O que o achado obriga a rever é maior do que o próprio objeto. Antes dele, imaginava-se que a arte monumental e o pensamento simbólico complexo só tivessem surgido com as primeiras aldeias agrícolas, milhares de anos mais tarde. A prancha prova que caçadores da floresta já talhavam ideias abstratas em escala, e ninguém sabe quantas outras se apagaram sem a sorte de cair num pântano.
Sobre a autoria, o silêncio é ainda maior. Não sabemos que grupo talhou a peça, quanto tempo levou, se era obra de um único artesão ou de muitas mãos, se ficava de pé ao ar livre como um totem ou abrigada em algum lugar. Não sobrou aldeia, sepultura nem oficina que respondesse a isso.
O ponto fraco de toda reconstrução é a falta de contexto. O ídolo saiu do pântano arrancado por garimpeiros, sem registro de camada, sem os objetos que costumam datar e explicar um achado. Ele sobreviveu justamente porque a turfa o isolou de tudo, e esse mesmo isolamento apagou quase tudo que contaria a sua história.
Fica a imagem final, e ela é difícil de largar. A prancha de lariço está hoje numa vitrine em Ecaterimburgo, com os rostos e os sinais ainda visíveis para qualquer visitante que se aproxime do vidro. É a mensagem mais antiga que uma escultura já nos entregou, gravada por uma mão que sabia o que dizia. Qualquer um pode encarar cada rosto. Ninguém consegue dizer o que eles anunciam.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
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