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Mistérios Milenares

O CASO DO DIA

UM MISTÉRIO EM ABERTO

O labirinto de 3.000 câmaras que virou um campo de cascalho

HAWARA · 3.000 CÂMARAS · GRAU DE MISTÉRIO, ALTO

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Uma ampla plataforma plana de cascalho de calcário claro fotografada à noite em ângulo baixo, com a silhueta de uma pirâmide de tijolo de barro no horizonte, estacas de topografia numeradas cravadas no chão, uma planta de sítio enrolada e uma lâmpada de leitura lançando luz âmbar focal sobre o terreno, um carrinho de radar de solo parado na borda e uma cova rasa cheia de água escura refletindo a luz

FICHA DO ARQUIVO

Relato: Heródoto visitou o labirinto de Hawara, no Egito, no século quinto antes de Cristo, e descreveu três mil câmaras distribuídas em dois pavimentos, um acima do solo e outro abaixo dele.
Registro: o historiador percorreu as mil e quinhentas câmaras de cima, e os guardas egípcios do sítio negaram a descida ao pavimento subterrâneo.
Anomalia: quando Flinders Petrie escavou o local em 1888, achou apenas uma plataforma de cascalho de calcário de trezentos por duzentos e cinquenta metros, e a sondagem de radar feita ali em 2008 apontou estruturas sob o lençol freático cujos dados nunca foram publicados na íntegra.

No século quinto antes de Cristo, um grego chegou à margem de um lago no Egito Médio, a algumas dezenas de quilômetros ao sul de Mênfis. Ele tinha ido ver uma pirâmide de tijolo de barro e encontrou, colado a ela, um edifício baixo e enorme, ocupando mais terreno que qualquer templo que já tivesse visitado.

O nome do visitante era Heródoto. Ele escreveu depois que a construção superava tudo o que os gregos tinham feito e superava também as pirâmides de Gizé. Não era elogio solto. Ele deixou claro que comparava o que via naquele instante com o que já havia visto em pedra do outro lado do rio.

Por dentro, o prédio era uma sucessão de pátios e passagens. Doze salões cobertos, portas de frente umas para as outras, corredores que davam em corredores, tetos de pedra inteiriça, paredes cobertas de relevo. O caminho subia degrau, virava, entrava em outro pátio, e nada indicava por onde se voltava.

Heródoto contou as câmaras. Três mil, segundo o registro dele, divididas em dois pavimentos: mil e quinhentas na parte de cima, mil e quinhentas debaixo do chão. Percorreu as de cima uma a uma e descreveu o percurso como uma coisa que nenhuma palavra dava conta de resumir.

Chegou então o momento da descida. Os guardas egípcios encarregados do lugar recusaram. As câmaras de baixo, disseram, guardavam os sepulcros dos reis que mandaram erguer a construção e os crocodilos sagrados da região. Nenhum estrangeiro entrava ali.

O grego aceitou a recusa e escreveu exatamente o que tinha acontecido. Detalhou o andar que caminhou e, sobre o de baixo, registrou apenas o que os guardas contaram. Sobrou como o relato mais minucioso de alguém que esteve dentro do labirinto de Hawara com o prédio ainda de pé.

Vinte e quatro séculos depois, um arqueólogo inglês foi procurar aquele edifício. Achou o lago, achou a pirâmide de tijolo, achou o povoado ao lado. No lugar onde deveriam estar os doze salões, encontrou um terreno raspado, plano, coberto de cascalho de calcário até onde a vista alcançava.

I

O registro

O sítio fica em Hawara, na entrada da depressão do Faium, ao lado do canal que liga o vale do Nilo ao lago hoje chamado Qarun. A pirâmide de tijolo de barro ali plantada é atribuída a Amenemhat III, faraó da décima segunda dinastia, que governou por volta do século dezenove antes de Cristo.

O labirinto ficava colado à face sul da pirâmide. Não era um enigma decorativo de corredores tortos, era um complexo funerário e administrativo em escala imperial, ligado ao templo do rei. A palavra grega para labirinto foi aplicada ao prédio pelo efeito que causava lá dentro, não por um projeto deliberado de confundir.

Heródoto não foi o único a registrar a construção. Estrabão, geógrafo grego que passou pelo Egito por volta do ano vinte antes de Cristo, descreveu o mesmo edifício com colunas, tetos de blocos únicos e um pátio para cada província do país. Diodoro Sículo e Plínio, o Velho, também escreveram sobre ele.

Todos os relatos batem em três pontos. O tamanho fora de escala, o teto de pedra maciça e o pavimento inferior interditado. Nenhum autor antigo afirma ter descido. Cada um deles repete a versão dos guardas de que embaixo estavam os sepulcros dos reis e os animais sagrados do lugar.

Em 1888, o inglês Flinders Petrie escavou Hawara. Ele era metódico, trabalhava com registro de camada e publicava planta do que abria. Procurou o edifício onde as fontes antigas o colocavam e encontrou uma plataforma retangular de cascalho de calcário, com cerca de trezentos metros por duzentos e cinquenta.

Um prédio que Heródoto considerou maior que as pirâmides sobrou como uma plataforma de cascalho, sem uma única parede em pé.

A plataforma não tinha parede, não tinha coluna erguida, não tinha piso de sala. Era o embasamento, a cama de material sobre a qual a construção inteira havia sido assentada. Tudo o que estava por cima tinha saído dali, bloco a bloco, carregado para longe.

A explicação para o sumiço é conhecida e nada misteriosa. Pedra cortada em bom estado era o material de construção mais barato disponível no Egito romano e nos séculos seguintes. Um complexo abandonado, à beira de um canal navegável, funcionava como pedreira pronta, com blocos já esquadrejados esperando transporte.

Petrie achou fragmentos que confirmam o endereço. Pedaços de coluna, restos de estátua, cacos com o nome de Amenemhat III e o enterro de uma princesa chamada Neferuptah nas redondezas. O sítio era o certo. O prédio é que tinha virado matéria-prima para as construções de outras cidades.

O que Petrie não conseguiu foi descer. O lençol freático em Hawara é alto e subiu ainda mais com a irrigação moderna da região. Qualquer poço aberto na plataforma enche de água em pouco tempo, e cavar abaixo do nível da água em terreno de areia e cascalho vira obra de engenharia, não trabalho de pá.

Em 2008, uma expedição belgo-egípcia levou a Hawara equipamento de sondagem geofísica: radar de penetração no solo e leitura de resistividade elétrica. A varredura cobriu a plataforma e o terreno em volta, atrás do que tivesse restado debaixo da camada de cascalho.

O resultado anunciado falava em anomalias regulares, com traçado compatível com paredes e divisões internas, a vários metros de profundidade e abaixo do nível da água. A notícia circulou, o relatório com os dados brutos nunca saiu na íntegra, e nenhuma escavação abriu o terreno para conferir.

 
⚷︎⚷︎⚷︎
 

II

A pergunta em aberto

A pergunta central é fácil de enunciar e difícil de fechar. Existiu mesmo um pavimento inteiro de câmaras debaixo do labirinto de Hawara, como Heródoto registrou por relato de terceiros, ou o número de três mil nasceu da conversa dos guardas e cresceu a cada vez que foi repetido?

O que se sabe é firme. O sítio existe, está localizado, tem dono identificado e data. A plataforma de cascalho está lá, medida e publicada. As fontes gregas e romanas descrevem o mesmo prédio com detalhes coerentes entre si, coisa rara na literatura antiga sobre monumento distante.

A primeira leitura é a mais econômica. O andar de baixo seria a câmara funerária da pirâmide e as galerias de serviço ao redor dela, um sistema real de corredores subterrâneos, porém em escala de tumba, não de mil e quinhentas salas. O número teria vindo de uma estimativa solta dos guias locais.

A segunda leitura leva o relato a sério. Complexos egípcios de armazenagem tinham centenas de compartimentos pequenos, e um prédio de dois níveis com câmaras do tamanho de despensas chegaria a números altos sem nenhuma mágica arquitetônica. Mil e quinhentas salas pequenas cabem num terreno daquele porte.

A terceira leitura olha para quem contou a história. Os guardas tinham motivo de sobra para manter o estrangeiro no andar de cima: proteger sepultura, proteger animal sagrado, proteger a própria função. Tinham também motivo para engrandecer o que ele não podia conferir com os próprios olhos.

A água resolve e complica ao mesmo tempo. Se restou estrutura subterrânea em Hawara, foi o lençol freático que a protegeu de quem passou séculos buscando pedra por ali. O mesmo lençol impede a verificação hoje sem bombeamento contínuo, contenção lateral e orçamento de obra pesada.

A sondagem de 2008 ficou no pior ponto possível. É forte o bastante para manter a hipótese viva, porque radar não desenha parede reta em terreno vazio. E é fraca o bastante para não provar nada, porque anomalia geofísica sem escavação continua sendo leitura de instrumento, não achado arqueológico.

O dado bruto faz falta pela razão mais banal. Sem o relatório completo, ninguém de fora consegue reprocessar as leituras, testar a calibração ou separar estrutura enterrada de camada natural de cascalho encharcado. A discussão trava no que foi anunciado, sem material para checar a conclusão.

Fica a cena do começo, invertida. Um homem no século quinto antes de Cristo caminhou por mil e quinhentas câmaras e foi barrado na escada que descia. Hoje temos a planta do terreno, a data do faraó, o nome da princesa e a leitura de radar, e continuamos parados no mesmo degrau, com água no lugar dos guardas.

O caso de hoje fica em aberto.

Amanhã, abrimos outro.

 

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“O conhecimento perdido por falta de referências provoca incertezas e mistério.”

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O que Flinders Petrie encontrou no local do labirinto de Hawara quando escavou o sítio em 1888?

ADoze salões intactos com tetos de pedra inteiriça ainda em pé
BUm lago subterrâneo com os crocodilos sagrados citados pelos guardas
CUma plataforma de cascalho de calcário de trezentos por duzentos e cinquenta metros, sem nenhuma parede em pé
DAs mil e quinhentas câmaras do pavimento inferior seladas e intocadas

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