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No século quinto antes de Cristo, um grego chegou à margem de um lago no Egito Médio, a algumas dezenas de quilômetros ao sul de Mênfis. Ele tinha ido ver uma pirâmide de tijolo de barro e encontrou, colado a ela, um edifício baixo e enorme, ocupando mais terreno que qualquer templo que já tivesse visitado.
O nome do visitante era Heródoto. Ele escreveu depois que a construção superava tudo o que os gregos tinham feito e superava também as pirâmides de Gizé. Não era elogio solto. Ele deixou claro que comparava o que via naquele instante com o que já havia visto em pedra do outro lado do rio.
Por dentro, o prédio era uma sucessão de pátios e passagens. Doze salões cobertos, portas de frente umas para as outras, corredores que davam em corredores, tetos de pedra inteiriça, paredes cobertas de relevo. O caminho subia degrau, virava, entrava em outro pátio, e nada indicava por onde se voltava.
Heródoto contou as câmaras. Três mil, segundo o registro dele, divididas em dois pavimentos: mil e quinhentas na parte de cima, mil e quinhentas debaixo do chão. Percorreu as de cima uma a uma e descreveu o percurso como uma coisa que nenhuma palavra dava conta de resumir.
Chegou então o momento da descida. Os guardas egípcios encarregados do lugar recusaram. As câmaras de baixo, disseram, guardavam os sepulcros dos reis que mandaram erguer a construção e os crocodilos sagrados da região. Nenhum estrangeiro entrava ali.
O grego aceitou a recusa e escreveu exatamente o que tinha acontecido. Detalhou o andar que caminhou e, sobre o de baixo, registrou apenas o que os guardas contaram. Sobrou como o relato mais minucioso de alguém que esteve dentro do labirinto de Hawara com o prédio ainda de pé.
Vinte e quatro séculos depois, um arqueólogo inglês foi procurar aquele edifício. Achou o lago, achou a pirâmide de tijolo, achou o povoado ao lado. No lugar onde deveriam estar os doze salões, encontrou um terreno raspado, plano, coberto de cascalho de calcário até onde a vista alcançava.
I
O registro
O sítio fica em Hawara, na entrada da depressão do Faium, ao lado do canal que liga o vale do Nilo ao lago hoje chamado Qarun. A pirâmide de tijolo de barro ali plantada é atribuída a Amenemhat III, faraó da décima segunda dinastia, que governou por volta do século dezenove antes de Cristo.
O labirinto ficava colado à face sul da pirâmide. Não era um enigma decorativo de corredores tortos, era um complexo funerário e administrativo em escala imperial, ligado ao templo do rei. A palavra grega para labirinto foi aplicada ao prédio pelo efeito que causava lá dentro, não por um projeto deliberado de confundir.
Heródoto não foi o único a registrar a construção. Estrabão, geógrafo grego que passou pelo Egito por volta do ano vinte antes de Cristo, descreveu o mesmo edifício com colunas, tetos de blocos únicos e um pátio para cada província do país. Diodoro Sículo e Plínio, o Velho, também escreveram sobre ele.
Todos os relatos batem em três pontos. O tamanho fora de escala, o teto de pedra maciça e o pavimento inferior interditado. Nenhum autor antigo afirma ter descido. Cada um deles repete a versão dos guardas de que embaixo estavam os sepulcros dos reis e os animais sagrados do lugar.
Em 1888, o inglês Flinders Petrie escavou Hawara. Ele era metódico, trabalhava com registro de camada e publicava planta do que abria. Procurou o edifício onde as fontes antigas o colocavam e encontrou uma plataforma retangular de cascalho de calcário, com cerca de trezentos metros por duzentos e cinquenta.
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Um prédio que Heródoto considerou maior que as pirâmides sobrou como uma plataforma de cascalho, sem uma única parede em pé.
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A plataforma não tinha parede, não tinha coluna erguida, não tinha piso de sala. Era o embasamento, a cama de material sobre a qual a construção inteira havia sido assentada. Tudo o que estava por cima tinha saído dali, bloco a bloco, carregado para longe.
A explicação para o sumiço é conhecida e nada misteriosa. Pedra cortada em bom estado era o material de construção mais barato disponível no Egito romano e nos séculos seguintes. Um complexo abandonado, à beira de um canal navegável, funcionava como pedreira pronta, com blocos já esquadrejados esperando transporte.
Petrie achou fragmentos que confirmam o endereço. Pedaços de coluna, restos de estátua, cacos com o nome de Amenemhat III e o enterro de uma princesa chamada Neferuptah nas redondezas. O sítio era o certo. O prédio é que tinha virado matéria-prima para as construções de outras cidades.
O que Petrie não conseguiu foi descer. O lençol freático em Hawara é alto e subiu ainda mais com a irrigação moderna da região. Qualquer poço aberto na plataforma enche de água em pouco tempo, e cavar abaixo do nível da água em terreno de areia e cascalho vira obra de engenharia, não trabalho de pá.
Em 2008, uma expedição belgo-egípcia levou a Hawara equipamento de sondagem geofísica: radar de penetração no solo e leitura de resistividade elétrica. A varredura cobriu a plataforma e o terreno em volta, atrás do que tivesse restado debaixo da camada de cascalho.
O resultado anunciado falava em anomalias regulares, com traçado compatível com paredes e divisões internas, a vários metros de profundidade e abaixo do nível da água. A notícia circulou, o relatório com os dados brutos nunca saiu na íntegra, e nenhuma escavação abriu o terreno para conferir.
II
A pergunta em aberto
A pergunta central é fácil de enunciar e difícil de fechar. Existiu mesmo um pavimento inteiro de câmaras debaixo do labirinto de Hawara, como Heródoto registrou por relato de terceiros, ou o número de três mil nasceu da conversa dos guardas e cresceu a cada vez que foi repetido?
O que se sabe é firme. O sítio existe, está localizado, tem dono identificado e data. A plataforma de cascalho está lá, medida e publicada. As fontes gregas e romanas descrevem o mesmo prédio com detalhes coerentes entre si, coisa rara na literatura antiga sobre monumento distante.
A primeira leitura é a mais econômica. O andar de baixo seria a câmara funerária da pirâmide e as galerias de serviço ao redor dela, um sistema real de corredores subterrâneos, porém em escala de tumba, não de mil e quinhentas salas. O número teria vindo de uma estimativa solta dos guias locais.
A segunda leitura leva o relato a sério. Complexos egípcios de armazenagem tinham centenas de compartimentos pequenos, e um prédio de dois níveis com câmaras do tamanho de despensas chegaria a números altos sem nenhuma mágica arquitetônica. Mil e quinhentas salas pequenas cabem num terreno daquele porte.
A terceira leitura olha para quem contou a história. Os guardas tinham motivo de sobra para manter o estrangeiro no andar de cima: proteger sepultura, proteger animal sagrado, proteger a própria função. Tinham também motivo para engrandecer o que ele não podia conferir com os próprios olhos.
A água resolve e complica ao mesmo tempo. Se restou estrutura subterrânea em Hawara, foi o lençol freático que a protegeu de quem passou séculos buscando pedra por ali. O mesmo lençol impede a verificação hoje sem bombeamento contínuo, contenção lateral e orçamento de obra pesada.
A sondagem de 2008 ficou no pior ponto possível. É forte o bastante para manter a hipótese viva, porque radar não desenha parede reta em terreno vazio. E é fraca o bastante para não provar nada, porque anomalia geofísica sem escavação continua sendo leitura de instrumento, não achado arqueológico.
O dado bruto faz falta pela razão mais banal. Sem o relatório completo, ninguém de fora consegue reprocessar as leituras, testar a calibração ou separar estrutura enterrada de camada natural de cascalho encharcado. A discussão trava no que foi anunciado, sem material para checar a conclusão.
Fica a cena do começo, invertida. Um homem no século quinto antes de Cristo caminhou por mil e quinhentas câmaras e foi barrado na escada que descia. Hoje temos a planta do terreno, a data do faraó, o nome da princesa e a leitura de radar, e continuamos parados no mesmo degrau, com água no lugar dos guardas.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
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