|
Em 1939, o historiador americano Paul Kosok sobrevoava o deserto costeiro do Peru, entre os vales dos rios Nazca e Ingenio, quando olhou pela janela do avião e viu algo que não fazia sentido. No chão árido e avermelhado, linhas retas se estendiam por quilômetros, convergindo em figuras geométricas enormes. Triângulos, espirais, retângulos, trapézios, todos com escala visível apenas do alto. Kosok registrou as coordenadas e comunicou a descoberta. Era o solstício de inverno no hemisfério sul. Uma das linhas apontava diretamente para o ponto onde o sol se punha naquele dia.
Kosok chamou as figuras de "o maior livro de astronomia do mundo". Estava errado sobre a astronomia, mas certo sobre a escala. As linhas de Nazca ocupam uma faixa de deserto de aproximadamente 500 quilômetros quadrados, e o catálogo atual ultrapassa 1500 geoglifos distintos.
I
Abertura do Dossiê
Os geoglifos foram produzidos por uma técnica simples: remoção da camada superficial de pedregulhos escuros oxidados pelo sol, expondo o solo claro de gesso e calcário logo abaixo. O contraste cromático entre o leito claro e a superfície escura cria linhas visíveis que persistem porque o deserto de Nazca é um dos mais secos do planeta. Menos de 25 milímetros de chuva por ano. Quase sem vento ao nível do solo. As condições de preservação são excepcionais: as figuras sobreviveram praticamente intactas por mais de 1500 anos.
Há três categorias de geoglifos. As linhas retas, que podem se estender por até dez quilômetros sem desvio mensurável. As figuras geométricas, como trapézios que chegam a 700 metros de comprimento. E os biomorfos, as figuras animais e vegetais que se tornaram os ícones da região: o colibri (93 metros), a aranha (46 metros), o condor (134 metros), o macaco (93 metros com a cauda em espiral), a baleia (65 metros), o pelicano (285 metros) e dezenas de outros, incluindo figuras humanoides e formas vegetais.
Em 2019, uma equipe liderada por Masato Sakai, da Universidade de Yamagata, no Japão, anunciou na Journal of Archaeological Science a descoberta de 143 geoglifos novos na região de Nazca e Palpa, muitos deles pequenos demais para serem vistos do ar a olho nu, identificados por análise de imagens de satélite e inteligência artificial. Em 2022, a mesma equipe elevou o total para mais de 300 novos geoglifos detectados. O catálogo continua crescendo.
|
"O maior livro de astronomia do mundo." Paul Kosok, historiador americano, ao sobrevoar Nazca pela primeira vez em 1939.
|
II
Contexto Histórico
Os geoglifos foram produzidos pela cultura Nazca, uma civilização pré-incaica que floresceu na costa sul do Peru entre aproximadamente 200 AEC e 600 EC. Os Nazca não tinham escrita. Não tinham rodas. Não tinham animais de carga domesticados. Viviam em pequenos centros urbanos ao longo dos vales irrigados, sendo Cahuachi, um complexo cerimonial de adobe de 150 hectares, o maior deles. A economia era agrícola, baseada em sistemas de irrigação subterrânea chamados puquios, alguns dos quais ainda funcionam hoje.
A cronologia dos geoglifos não é precisa, mas a maioria dos pesquisadores situa a produção principal entre 500 AEC e 500 EC, com base em datação de cerâmica encontrada nas proximidades das linhas e em análises de termoluminescência. Os biomorfos parecem ser mais antigos, produzidos pela cultura Paracas anterior, entre 500 e 200 AEC, enquanto as linhas retas e figuras geométricas datam predominantemente do período Nazca clássico.
A pesquisadora que mais tempo dedicou ao estudo das linhas foi a matemática e arqueóloga alemã Maria Reiche. Chegou ao Peru em 1932 como governanta, conheceu as linhas por meio de Kosok nos anos 1940 e passou os cinquenta anos seguintes medindo, mapeando e protegendo os geoglifos. Reiche defendia que as linhas eram um imenso calendário astronômico, com figuras e linhas apontando para solstícios, equinócios e posições de estrelas específicas. Morreu em 1998, aos 95 anos, e está sepultada em Nazca.
III
O que as Evidências Mostram
A hipótese astronômica de Reiche foi testada quantitativamente em 1968 pelo astrônomo Gerald Hawkins, da Universidade de Boston, o mesmo pesquisador que havia proposto alinhamentos astronômicos em Stonehenge. Hawkins programou um computador para verificar se as linhas de Nazca apontavam para posições de corpos celestes com frequência estatisticamente superior ao acaso. O resultado: não. O número de alinhamentos reais era indistinguível do que seria obtido traçando linhas aleatórias no deserto. A hipótese do calendário astronômico perdeu sustentação.
A pesquisa contemporânea mais robusta é a do antropólogo Johan Reinhard e do arqueólogo italiano Giuseppe Orefici, que escavou Cahuachi por mais de trinta anos. Reinhard propôs, em The Nazca Lines: A New Perspective on their Origin and Meaning (1996), que os geoglifos estão ligados a cultos hídricos. No deserto mais seco do mundo, a água é a questão central. Muitas das linhas retas convergem para pontos onde rios subterrâneos se aproximam da superfície. Os trapézios frequentemente apontam para vales fluviais. As figuras animais podem representar entidades associadas à água e à fertilidade na cosmologia andina: a aranha ligada à chuva, o macaco à água de nascente, o condor ao vento que traz umidade.
A técnica de construção é menos misteriosa do que parece. Experimentos conduzidos por Joe Nickell, em 1982, e depois por equipes da Universidade de Yamagata demonstraram que é possível produzir os geoglifos usando apenas estacas, cordas e planejamento prévio em escala menor. Os Nazca poderiam ter desenhado modelos em escala reduzida e ampliado para o terreno com um sistema de grade de coordenadas. Nenhuma tecnologia impossível é necessária. Trabalho coletivo organizado e tempo são suficientes.
A análise de imagens por IA conduzida pela equipe de Sakai revelou que os geoglifos menores, de 5 a 20 metros, estão concentrados ao longo de caminhos pedestres entre centros habitados. Não foram feitos para serem vistos do alto. Foram feitos para serem percorridos a pé. Isso sugere que a função dos geoglifos pode ter variado com o tamanho: os pequenos como marcadores de trilha ou locais de oferenda individual, os grandes como cenários de procissões coletivas visíveis da encosta dos morros adjacentes.
IV
A Pergunta em Aberto
A pergunta que permanece não é "como", porque a técnica está demonstrada. A pergunta que persiste, e que divide os pesquisadores, é "para quem". Os geoglifos grandes, com mais de cem metros, são irreconhecíveis ao nível do solo. Quem caminha sobre o colibri não sabe que está pisando num colibri. A forma só se revela de cima. Os Nazca não tinham aeronaves.
Há três linhas de interpretação abertas. A primeira, que vem de Reinhard e da escola etnográfica andina, sustenta que os geoglifos eram oferendas aos deuses da montanha e da água, figuras que não precisavam ser vistas por humanos porque eram dirigidas a entidades que habitavam o alto, os apus andinos e as forças celestes que controlavam a chuva. A segunda, defendida por Anthony Aveni, da Colgate University, sugere que o ato de construção era o ritual em si: centenas de pessoas percorrendo as linhas, carregando oferendas, limpando o cascalho, e que a figura final era menos importante que o processo comunitário de produzi-la. A terceira, mais recente e baseada nos achados da equipe japonesa, propõe que diferentes tipos de geoglifos tinham funções diferentes, e que tratá-los como um fenômeno único é o erro fundamental que impede uma interpretação consensual.
Nenhuma das três exclui as outras. Nenhuma foi confirmada como explicação suficiente.
O deserto continua seco. A cada temporada de análise por satélite, surgem figuras novas, enterradas sob uma camada tão fina de cascalho que bastou uma vassoura para que o vento as revelasse. O catálogo de Nazca ainda está incompleto. O que as figuras significavam para quem as produziu permanece, como quase tudo naquela paisagem, visível apenas de um ponto de vista que ainda não alcançamos.
O dossiê desta semana fica em aberto.
|