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Mistérios Milenares · Um alfabeto com quase dez vezes mais letras que o normal
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O CASO DO DIA

UM MISTÉRIO EM ABERTO

O livro que tem dez vezes letras demais

BIBLIOTECA DA ACADEMIA HÚNGARA, BUDAPESTE · DÉCADA DE 1830 A PRESENTE · GRAU DE MISTÉRIO, ALTO

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Códice de Rohonc aberto sobre mesa escura, páginas de papel amarelado cobertas de sinais desconhecidos sob luz âmbar

Um livro inteiro escrito com dez vezes mais letras do que qualquer alfabeto deveria ter. Ou é o código mais teimoso da Europa, ou a farsa mais trabalhosa já encadernada, e as duas hipóteses me fascinam igual. O dossiê de hoje folheia esse enigma.

Há na Biblioteca da Academia Húngara de Ciências, em Budapeste, um volume de 448 páginas que ninguém conseguiu ler. Tem cerca de 200 ilustrações: cenas de cruz, de batalha, de oração, misturando símbolos cristãos, pagãos e que parecem islâmicos na mesma página. E tem texto. Muito texto, em linhas regulares, organizado como qualquer livro de verdade.

O problema é o alfabeto. Em vez das algumas dezenas de letras que toda língua humana conhecida usa, o Códice de Rohonc tem algumas centenas de sinais distintos. Quase dez vezes mais do que qualquer escrita catalogada precisa para funcionar.

Faz quase dois séculos que especialistas olham para essas páginas e travam na mesma pergunta: isso é uma língua real que nunca deciframos, ou um embuste tão bem feito que imita o aspecto de uma?

O REGISTRO

O que se sabe

O códice aparece pela primeira vez no registro histórico em 1838, quando o conde Gusztáv Batthyány doa sua biblioteca à Academia Húngara de Ciências. O nome vem de Rohonc, hoje Rechnitz, na Áustria, onde a coleção da família ficava guardada. Antes disso, nada. Não há nota de compra, dedicatória ou menção anterior que diga de onde o livro saiu, quem o escreveu ou quando.

O suporte é papel, não pergaminho. Análises do material apontam para um papel veneziano em uso por volta de 1530, o que dá um limite de quando o objeto pode ter sido fabricado, mas não de quando o texto foi escrito sobre ele.

As ilustrações, simples e de traço cru, retratam episódios de teor religioso. A direção da escrita também não ajuda a fechar o caso: vários pesquisadores leem da direita para a esquerda e de baixo para cima, o que é incomum e dificulta qualquer comparação direta com alfabetos conhecidos.

O número de símbolos é o nó central. Numa escrita alfabética, cada sinal representa um som, e bastam poucas dezenas. Numa escrita silábica, os sinais representam sílabas e podem chegar à casa das centenas.

Já num sistema logográfico, como o chinês, cada sinal pode valer uma palavra inteira, e aí os milhares aparecem. As contagens do Rohonc variam conforme o método, mas todas caem num intervalo alto demais para um alfabeto e ambíguo demais para cravar qualquer das outras categorias.

É essa indefinição que mantém o livro em aberto.

"Bastam poucas dezenas de sinais para escrever qualquer língua. O Rohonc tem algumas centenas, e é nesse excesso que o caso trava."

Duas leituras disputam o caso há mais de cem anos. A primeira diz que o Rohonc é uma escrita genuína, talvez um sistema religioso particular ou uma língua minoritária com notação própria, ainda não decifrada.

A segunda, defendida desde o século XIX, diz que é uma falsificação: um livro feito para parecer um manuscrito antigo e misterioso, sem nenhuma mensagem real por baixo. O nome mais citado nessa hipótese é o de Sámuel Literáti Nemes, um colecionador húngaro da época conhecido por produzir antiguidades forjadas.

A acusação nunca foi provada nem descartada de forma definitiva.

Nas últimas décadas, propostas de decifração começaram a aparecer. Pesquisadores que aplicaram análise estatística ao texto sustentam ter encontrado padrões compatíveis com uma língua de verdade, e alguns chegaram a propor leituras parciais ligadas a passagens do Novo Testamento.

Outros estudiosos contestam: para eles, os padrões observados também podem surgir de um texto construído artificialmente, sem que isso prove a existência de um idioma por trás. Nenhuma decifração foi aceita de forma ampla pela comunidade acadêmica.

A PERGUNTA EM ABERTO

O que ninguém leu

O que ninguém conseguiu fazer, até hoje, é a coisa mais básica que se pede a um texto: lê-lo de um jeito que outra pessoa possa repetir e confirmar. Não há tradução consensual de uma única página. Não há nem acordo sobre a categoria do sistema, se alfabeto inflado, silabário, escrita mista ou ruído organizado.

A própria pergunta que define o caso continua sem resposta. Se o Rohonc for escrita real, então existe uma língua ou um código que sobreviveu intacto em 448 páginas e ainda assim escapou de todos os métodos modernos, dos criptógrafos aos modelos estatísticos.

Se for fraude, então alguém produziu algumas centenas de símbolos consistentes ao longo de um livro inteiro, com ilustrações e estrutura de capítulos, só para simular um sentido que nunca existiu. As duas saídas são extraordinárias à sua maneira, e o objeto não entrega qual delas é a verdadeira.

O códice segue na estante, lido por ninguém, esperando que a contagem dos sinais um dia faça sentido.

O caso de hoje fica em aberto.

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Verdadeiro ou Falso: o Códice de Rohonc usa um sistema de escrita com algumas centenas de sinais distintos, muito acima das poucas dezenas de letras de um alfabeto comum, e por isso nunca foi decifrado de forma consensual.

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