Mistérios Milenares #001 · O livro que ninguém consegue ler
Mistérios Milenares

DOSSIÊ Nº 001

O MISTÉRIO DA SEMANA

O livro que ninguém consegue ler

ITÁLIA · SÉCULO XV · GRAU DE MISTÉRIO, ALTO

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Em 1912, o antiquário Wilfrid Voynich entrou na biblioteca da Villa Mondragone, um antigo colégio jesuíta em Frascati, ao sul de Roma, e saiu com uma caixa de livros raros comprada dos padres para saldar dívidas da congregação. Dentro da caixa, havia um códice de 240 páginas em pergaminho, encadernado em bege, escrito por uma mão anônima em um alfabeto que ninguém reconheceu.

O livro viajou pela Europa. Passou pelas mãos de imperadores, criptógrafos do Vaticano, matemáticos da NSA. Foi atravessado por algoritmos de machine learning. Nenhuma palavra dele foi definitivamente decifrada em 600 anos.

I

Abertura do Dossiê

O códice é pequeno. Mede 23,5 por 16,2 centímetros. A encadernação atual é do século XVII. O pergaminho, analisado por datação de carbono em 2011 na Universidade do Arizona, foi produzido entre 1404 e 1438, com 95% de confiança estatística. O que restou são 240 fólios, embora a paginação original indique que havia, pelo menos, 270 ou 272. Trinta páginas, no mínimo, desapareceram antes de o livro chegar às mãos de Voynich.

O conteúdo se organiza em cinco seções visuais. A seção botânica traz mais de 113 plantas desenhadas em caules, folhas e raízes, nenhuma delas correspondendo a espécies conhecidas da flora europeia, africana ou asiática medieval. A seção astronômica mostra diagramas circulares com signos do zodíaco reconhecíveis, peixes, touro, escorpião, e figuras femininas nuas dispostas ao redor. A seção biológica representa centenas dessas mesmas figuras banhando-se em estruturas que parecem tubos ou aquedutos interconectados. Há ainda uma seção cosmológica, com mandalas celestes, e uma seção farmacológica, com frascos rotulados e plantas fragmentadas.

O texto está escrito em um alfabeto próprio, batizado de voynichese. Tem entre vinte e trinta símbolos distintos, a depender da forma como se contam as variantes. As palavras são separadas por espaços. O livro parece ter sido escrito por uma única mão, embora análises paleográficas recentes sugiram a possibilidade de duas ou três mãos trabalhando em seções diferentes. A tinta é homogênea. Não há rasuras significativas, o que, por si só, é estranho: quem escreve sem errar está copiando algo já pronto, não compondo no calor do momento.

"É uma tentativa inicial de construir uma linguagem artificial, do tipo filosófico." William Friedman, criptoanalista da NSA, últimos anos de vida (1969).

II

Contexto Histórico

A primeira trilha documental do manuscrito começa em Praga, na corte de Rodolfo II, Sacro Imperador Romano, colecionador obsessivo de alquimistas, astrólogos e mapas celestes. Uma carta de 1639, escrita pelo alquimista Georg Baresch ao jesuíta Athanasius Kircher, afirma que Rodolfo II teria pago seiscentos ducados de ouro pelo livro, uma fortuna para a época. Muitos historiadores apontaram, por séculos, para o matemático e ocultista John Dee, astrólogo de Elizabeth I, que esteve em Praga nos anos 1580. Nenhuma evidência direta comprova a transação.

Do século XVII em diante, o livro entra e sai dos arquivos jesuítas. Passa por Kircher, o erudito do Colégio Romano que decifrou parte do egípcio antigo (embora tenha errado quase tudo). Hiberna por mais de duzentos anos na biblioteca da Villa Mondragone, em Frascati, até ser vendido a Voynich em 1912. Depois da morte do antiquário, em 1930, o códice passa pelas mãos de sua esposa, da última proprietária, da Universidade de Yale, e repousa hoje na Beinecke Rare Book and Manuscript Library, catalogado como MS 408.

A origem do autor permanece sem consenso. Alguns pesquisadores especulam que seria obra de um círculo monástico no norte da Itália, possivelmente franciscano. Outros apontam para o mundo bizantino ou para o sul da península ibérica, em zonas de contato entre cristãos, judeus e muçulmanos. Nomes como Roger Bacon (impossível, morreu um século antes do pergaminho ser produzido), o próprio John Dee e o alquimista Edward Kelley aparecem com frequência nas teorias de autoria. Nenhuma resiste ao confronto com a datação por carbono.

III

O que as Evidências Mostram

As investigações sérias sobre o manuscrito começaram no século XX. William Friedman, o maior criptoanalista da história americana, o homem que quebrou o código diplomático japonês Purple antes de Pearl Harbor, dedicou mais de trinta anos ao Voynich. Formou um grupo de estudo com matemáticos e linguistas, analisou padrões estatísticos, tentou substituições monoalfabéticas, polialfabéticas, códigos compostos. Morreu em 1969 sem avançar um centímetro.

Nos anos 1970, o criptoanalista Prescott Currier publicou uma análise estatística que viraria referência. Em Papers on the Voynich Manuscript (1976), Currier demonstrou que o texto obedece à lei de Zipf, uma regularidade observada em todas as línguas naturais: a frequência de uma palavra é inversamente proporcional à sua posição no ranking de frequências. O voynichese segue esse padrão. Estatisticamente, o texto se comporta como uma linguagem real, não como sequência aleatória gerada para dar aparência de texto.

Ao mesmo tempo, o voynichese tem propriedades estatísticas que não batem com nenhuma língua conhecida. A distribuição de letras dentro de palavras é rígida demais: certos símbolos só aparecem no início, outros apenas no fim, e algumas combinações parecem proibidas. A entropia informacional (medida da imprevisibilidade) é mais baixa do que a do latim, do árabe ou do chinês medieval. As palavras se repetem em blocos próximos com frequência anormal, às vezes duas ou três vezes seguidas. Nenhum idioma natural conhecido faz isso.

Nos anos 2000, algoritmos de processamento de linguagem natural passaram a ser aplicados ao manuscrito. Em 2013, o físico teórico Marcelo Montemurro, da Universidade de Manchester, publicou no PLOS ONE uma análise por distribuição semântica que sugeriu que o texto carrega informação real, não é ruído. Em 2019, o pesquisador Gerard Cheshire anunciou, na Romance Studies, que o voynichese seria uma forma arcaica de proto-romance falado por freiras italianas. A comunidade acadêmica rejeitou a hipótese em poucas semanas, apontando falhas metodológicas graves. Algoritmos de machine learning seguem sendo aplicados ao texto. Nenhum produziu, até hoje, uma tradução consistente de uma única frase completa.

IV

A Pergunta em Aberto

Há quatro caminhos hipotéticos abertos pela pesquisa séria. O primeiro: uma linguagem construída, projeto filosófico medieval de criar um idioma universal, séculos antes do volapuque ou do esperanto. O segundo: um código cifrado sobre uma língua natural subjacente, provavelmente o latim ou um dialeto europeu do século XV. O terceiro: um hoax renascentista produzido para enganar colecionadores como Rodolfo II. O quarto, o mais vertiginoso: uma língua natural extinta, cujo registro escrito sobrevive apenas nesse livro, sem paralelo em nenhum arquivo do mundo. Nenhuma foi confirmada. Nenhuma foi definitivamente descartada.

Parte do problema é estrutural. Códigos medievais são quebráveis quando se conhece o idioma-base. Línguas extintas são decifráveis quando há textos bilíngues, como aconteceu com o egípcio antigo e a Pedra de Roseta. Linguagens construídas são decifráveis quando há manuais ou usuários vivos. O Voynich não oferece nada disso. É um objeto solitário, sem parente conhecido, sem tradução auxiliar, sem contexto linguístico comparativo. Um artefato escrito em um alfabeto sem povo e em uma gramática sem vocabulário acessível.

Talvez algum algoritmo futuro consiga. Talvez um achado em um mosteiro esquecido abra uma porta. Por enquanto, o MS 408 continua sentado na estante de Yale, esperando um leitor que ainda não chegou.

O dossiê desta semana fica em aberto.

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