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Um almirante otomano compilou seu mapa a partir de cerca de vinte cartas mais antigas, e nenhuma delas chegou até nós. O que me tira o sono não é a costa que ele desenhou: são as fontes que sumiram. O dossiê de hoje desdobra o pergaminho.
Em 1929, um historiador alemão remexia caixas no antigo Palácio de Topkapı, em Istambul, quando abriu um pergaminho dobrado havia séculos. Era pele de gazela, manchada de tempo, coberta de costas de continentes, rosas dos ventos e anotações escritas à mão. No canto, uma data: 1513.
O autor era um almirante otomano, e ali estava o Atlântico inteiro, com a África de um lado e a América do outro.
O que congelou os especialistas não foi a beleza da carta. Foi o detalhe.
A costa leste da América do Sul aparece desenhada com uma precisão que custa explicar para um mapa feito vinte e um anos depois da primeira viagem de Colombo, quando quase nada daquele litoral tinha sido percorrido por europeus.
E o próprio autor escreveu, na margem, que não inventou nada: copiou de mapas mais velhos.
I
O registro
O documento é o mapa de Piri Reis, traçado em 1513 por um almirante e cartógrafo a serviço do Império Otomano. Sobrevive apenas um fragmento, cerca de um terço da folha original, e foi esse pedaço que reapareceu em 1929.
O resto, com a maior parte da Ásia e da Europa, está perdido. O que restou cobre o Atlântico: o oeste da África, a Península Ibérica ao norte e a faixa da América do Sul a oeste.
O ponto que sustenta o mapa não é uma teoria, é o que está escrito nele. Em notas espalhadas pela carta, Piri Reis afirma ter compilado o mapa a partir de cerca de vinte fontes anteriores.
Cita cartas gregas antigas, mapas árabes e portugueses, e, de forma direta, um mapa atribuído a Cristóvão Colombo, que ele teria obtido de um marinheiro espanhol capturado.
Se essa última afirmação for verdadeira, o fragmento conteria um eco de uma carta perdida do próprio Colombo, algo que nenhum acervo do mundo possui hoje.
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Nenhuma das fontes que Piri Reis cita por escrito foi encontrada. O mapa de Colombo, as cartas gregas, os portulanos que ele diz ter usado: tudo desapareceu. Resta apenas a cópia, declarando de quem copiou.
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A partir daí, separa-se o documentado da hipótese. O que é fato: o mapa existe, a datação de 1513 se sustenta, e as anotações sobre as fontes são autênticas.
O que é disputa: a partir dos anos 1950, surgiu a leitura de que a faixa de terra mais ao sul do fragmento, que se curva para o leste em vez de seguir a costa argentina, representaria o litoral da Antártida, e mais do que isso, um litoral sem a camada de gelo que o cobre hoje.
Como a Antártida só foi avistada em 1820 e seu contorno sob o gelo só foi mapeado por radar no século XX, a coincidência alimentou décadas de especulação.
A explicação aceita pela maioria dos cartógrafos é mais sóbria: a costa sul-americana foi simplesmente entortada para caber no espaço do pergaminho, uma distorção comum em cartas da época, sem nenhuma Antártida envolvida.
II
A pergunta em aberto
O incômodo de Piri Reis não está no que o mapa mostra. Está no que ele diz ter copiado e não pode mais ser conferido.
A leitura antártica é, hoje, a parte frágil do caso. A maioria dos especialistas a considera uma coincidência forçada por distorção, e o ônus da prova nunca foi vencido.
Mas, ao se descartar a Antártida, sobra um enigma menor e mais resistente, que não depende de nenhuma teoria exótica: de onde veio a precisão do litoral sul-americano numa carta de 1513? Pouquíssimas expedições tinham tocado aquela costa.
As fontes que o próprio almirante lista como base estão todas perdidas, então não há como abrir o mapa de Colombo ao lado e comparar traço por traço.
É aí que mora a questão sem resposta consensual. O que de fato existia nesses cerca de vinte mapas que Piri Reis empilhou sobre a mesa?
Qual era a real qualidade do conhecimento cartográfico que circulava entre gregos, árabes, portugueses e espanhóis às vésperas da expansão marítima, conhecimento que talvez tenha se queimado, apodrecido ou sumido em saques antes de ser registrado em outro lugar?
Quanto da carta é observação fresca da era dos descobrimentos e quanto é herança de mapas que ninguém mais pode ler?
Não dá para responder com o fragmento que sobrou. O documento confessa de quem copiou, lista as fontes uma a uma, e cada uma dessas fontes virou pó. O mapa de 1513 está aqui, em pele de gazela, sob luz de vitrine. As cartas que o geraram continuam em branco.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
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