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Um navio de velas abertas cruzando o Atlântico, e nenhuma alma no convés. Carga no porão, comida na despensa, botas ao pé das camas. Dez pessoas que o mar levou sem deixar um arranhão de explicação. É esse vazio navegando sozinho que me prende ao caso. O dossiê de hoje sobe a bordo por uma escada de corda.
A cena começa pelos olhos de quem chegou primeiro. Tarde de 4 de dezembro de 1872, meio caminho entre os Açores e a costa de Portugal. O vigia do brigantim Dei Gratia avista um veleiro ao longe, andando torto, com poucas velas soltas e rumo indeciso. Os sinais não obtêm resposta.
Três homens remam até o casco e sobem. O convés está encharcado e deserto. Nas cabines, roupas dobradas, brinquedos de criança, seis meses de comida e água. No porão, mil setecentos e um barris de álcool industrial, presos e alinhados como saíram de Nova York.
Falta uma coisa só: gente. O capitão, a esposa, a filha de dois anos e sete tripulantes. Dez pessoas deixaram um navio que ainda flutuava, ainda andava, ainda obedecia ao vento. O nome pintado na popa: Mary Celeste.
I
O registro
Os fatos duros do caso cabem num relatório de porto. O Mary Celeste zarpou de Nova York em 7 de novembro de 1872, rumo a Gênova, carregando álcool industrial destinado a vinícolas italianas. No comando, Benjamin Briggs, capitão experiente, sóbrio e respeitado, dono de um terço do próprio navio. Confiava tanto na travessia que levou a esposa, Sarah, e a filha pequena, Sophia.
Vinte e sete dias depois, o Dei Gratia o encontrou vagando no meio do caminho entre os Açores e Portugal. E o detalhe que arrepia: o capitão do Dei Gratia, David Morehouse, conhecia Briggs. Os dois haviam jantado juntos em Nova York dias antes da partida.
O estado do navio é a primeira anomalia. O Mary Celeste estava navegável. Havia cerca de um metro de água no porão, volume incômodo, longe de afundar um cargueiro daquele porte. Duas escotilhas abertas, uma bomba desmontada no convés, velas em parte içadas, algumas rasgadas. Desordem de tempo ruim, não de tragédia.
A segunda anomalia é a lista do que sumiu. O bote salva-vidas não estava lá. O sextante e o cronômetro, os instrumentos que dizem onde o navio está no oceano, também não. Os papéis da embarcação desapareceram. Ficou apenas o diário de bordo do capitão.
E o diário guarda a terceira anomalia. A última anotação é de 25 de novembro, às oito da manhã, registrando o navio à vista da ilha de Santa Maria, nos Açores. Depois, nada.
Entre a última linha escrita e o encontro com o Dei Gratia, o Mary Celeste percorreu sozinho cerca de setecentos quilômetros de mar aberto. Nove dias inteiros, sem uma mão no leme.
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O bote sumiu, o sextante sumiu, as pessoas sumiram. Tudo o que orienta uma fuga foi levado com método. Tudo o que sustenta uma vida a bordo ficou no lugar.
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Some a esse quadro o que não foi encontrado. Nenhum sinal de luta. Nenhuma arma fora do lugar, além de uma espada velha guardada sob a cama do capitão. Os pertences pessoais, incluindo objetos de valor, seguiam intocados.
Quem saiu dali não saiu roubando, nem fugindo de um ataque. Saiu levando o mínimo para navegar, e nunca mais voltou.
II
A pergunta em aberto
O que não fecha é o motivo da saída.
O primeiro a tentar fechar o caso foi um tribunal. O navio foi levado a Gibraltar, onde o procurador Frederick Solly Flood conduziu o inquérito de salvamento convencido de que havia crime na história. Suspeitou de motim, de tripulação embriagada com o álcool da carga, e até de conluio entre Briggs e Morehouse para dividir o prêmio de salvamento.
Nenhuma suspeita ficou de pé. O álcool do porão era industrial, impróprio para beber. As manchas apontadas como sangue não passaram no exame. A tripulação tinha ficha limpa, e Briggs, sócio do navio, arruinaria o próprio patrimônio com a farsa.
Depois de três meses, o tribunal liberou o prêmio, reduzido e a contragosto, e devolveu o mistério intacto.
A hipótese mais aceita hoje nasce da carga. Dos mil setecentos e um barris, nove chegaram vazios a Gênova, e eram justamente os feitos de carvalho vermelho, madeira mais porosa. Vapor de álcool teria escapado no porão fechado, e um estalo, um cheiro forte ou um sopro de pressão soaria como anúncio de explosão.
Nessa leitura, Briggs mandou todos ao bote por precaução, amarrado ao navio por um cabo, esperando o porão arejar. Um vento súbito enche as velas, o cabo se rompe, e o oceano abre uma distância que ninguém rema de volta. A adriça principal, o cabo que iça a vela grande, foi encontrada partida, e há quem veja nela a corda que prendia o bote.
A hipótese explica a saída ordenada, os instrumentos levados, as escotilhas abertas. E tropeça no que falta: nenhuma marca de fogo, nenhum barril estourado, nenhum cheiro registrado pelos homens do Dei Gratia. Capitão experiente não abandona navio são, a manobra é o último recurso do mar. O susto precisaria vencer vinte anos de instinto, e não há prova de que aconteceu.
A segunda leitura vem do céu. Uma tromba d'água, coluna de vento e chuva girando sobre o mar, teria varrido o navio. O fenômeno explicaria o convés encharcado, as velas rasgadas e um efeito traiçoeiro: a queda brusca de pressão engana a sondagem, fazendo um metro de água parecer porão inundando. O capitão lê o número errado e ordena a saída.
É engenhoso, e é também reconstrução retroativa. Nenhum registro de tempo severo naquela rota, naquela janela, sustenta a tromba. A leitura nasce do que precisa explicar, não do que alguém viu.
Fica o desenho final, e ele incomoda. Dez pessoas trocaram um navio seguro por um bote de quatro metros no meio do Atlântico, levando os instrumentos certos e nenhuma chance real. O mar guardou o resto, e não devolveu nem uma tábua do bote.
O navio, esse sobreviveu. Navegou mais doze anos, trocando de dono como quem troca de maldição, até ser lançado de propósito contra um recife do Haiti, em 1885, num golpe de seguro que deu errado. Nem afundar direito ele afundou. O Mary Celeste segue onde sempre esteve: à vela, no arquivo, com dez lugares vazios e a pergunta solta no ar.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
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