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Em dezembro de 1971, uma turma de operários cavava um abrigo antiaéreo no morro de Mawangdui, na borda leste de Changsha, no sul da China. O serviço era o de sempre: furar o barro duro, escorar a galeria e revestir a parede para o abrigo do hospital vizinho.
A obra descia bem até as sondas começarem a devolver terra errada. Não era o barro vermelho da região. Era uma argila branca, pegajosa, colada na ponta da broca, e logo abaixo dela veio carvão vegetal em quantidade que nenhuma obra justifica.
Um dos homens aproximou fogo do furo para enxergar melhor. Do buraco saiu uma chama azulada, gás escapando de alguma coisa fechada lá embaixo havia muito tempo. A escavação parou e os arqueólogos de Changsha foram chamados ao terreno.
O que estava embaixo era uma câmara funerária de madeira de cipreste, montada sem prego, no fundo de um poço de dezesseis metros com degraus escavados nas laterais. Em volta da câmara, cerca de cinco toneladas de carvão. Em volta do carvão, mais de um metro de argila branca socada.
Dentro da câmara havia quatro caixões laqueados, encaixados um dentro do outro como bonecas russas. O de fora, preto liso. Depois um preto com nuvens e figuras coloridas. Depois um vermelho com desenhos. O último, forrado de seda, com plumas coladas na superfície.
Sobre a tampa do caixão interno estava estendido um estandarte de seda pintada em forma de T, com céu, terra e mundo de baixo distribuídos em faixas, o tecido inteiro e as cores ainda legíveis.
Ao levantar a última tampa, o que apareceu foi uma trouxa. Vinte camadas de tecido enroladas e amarradas com fitas de seda, e o pacote inteiro submerso. Cerca de oitenta litros de um líquido avermelhado enchiam o fundo daquele caixão.
Sob a seda estava a esposa do marquês de Dai. A pele cedia ao toque e voltava ao lugar. Os braços e as pernas dobravam nas juntas. O cabelo continuava preso no couro cabeludo, com cílios, tímpano esquerdo e impressões digitais no lugar.
Nas veias havia sangue ainda identificável, tipo A. E no aparelho digestivo, 138 caroços de melão, parados exatamente no ponto do trajeto onde estavam quando ela fez a última refeição, vinte e um séculos antes daquela manhã.
I
O registro
O sítio fica no morro de Mawangdui, hoje dentro da malha urbana de Changsha, província de Hunan. São três túmulos no mesmo terreno. O de número 1 foi escavado entre janeiro e abril de 1972, depois que a obra do abrigo antiaéreo bateu na argila branca.
A ocupante é identificada como Xin Zhui, esposa de Li Cang, marquês de Dai e chanceler do reino de Changsha no começo da dinastia Han. O sepultamento é datado por volta de 163 antes de Cristo, o que dá pouco mais de dois mil e cem anos até a abertura.
A engenharia do fecho é o dado técnico mais citado do conjunto. Câmara de madeira encaixada sem prego, cinco toneladas de carvão vegetal em volta, camada de argila branca de mais de um metro por cima e ao redor, e terra socada acima de tudo até a boca do poço.
Carvão absorve umidade. Argila branca desse tipo é praticamente impermeável. A combinação fechou a câmara contra água corrente, contra ar e contra a variação de temperatura da superfície, e é ela que explica o gás preso que soltou chama azul na broca do operário.
O enxoval foi contado em mais de mil peças. Vestes de seda, uma túnica de gaze de quarenta e nove gramas, lacas pintadas, instrumentos musicais, cosméticos, cereais e frutas em recipientes fechados, além de tábuas de bambu com o inventário do enterro.
O corpo mediu um metro e cinquenta e quatro e pesou trinta e quatro quilos ao ser retirado. A idade estimada ficou perto dos cinquenta anos. Os órgãos internos estavam nos lugares, o que permitiu uma autópsia completa realizada por uma equipe médica de Hunan ainda em dezembro de 1972.
A autópsia devolveu um prontuário clínico inteiro. Artérias com placas de gordura, obstrução em uma coronária, cálculos na vesícula, ovos de três parasitas diferentes nos intestinos e sinais de chumbo e mercúrio acumulados nos tecidos ao longo dos anos.
Os 138 caroços de melão estavam distribuídos entre o esôfago, o estômago e o intestino, sem sinal de terem avançado no trajeto. A leitura médica é direta: a última refeição tinha poucas horas quando o processo digestivo parou de vez.
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A pele cedia ao toque e voltava ao lugar. As juntas dobravam. Nada disso deveria existir depois de vinte e um séculos.
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O líquido do fundo do caixão foi medido em cerca de oitenta litros. Cor avermelhada, levemente ácido, com pH em torno de cinco, matéria orgânica em suspensão e traços de mercúrio e magnésio nas análises da época.
Nenhum documento explica esse líquido. As tábuas de bambu do próprio túmulo listam roupa, comida, utensílio e criado, item por item, e não trazem uma linha sobre preparo, receita ou procedimento de conservação do corpo.
Nenhum texto médico chinês daquele período descreve nada equivalente. Existem registros de banho ritual, de óleo aromático e de vestimenta de mortalha, práticas de higiene e de cerimônia, não de submersão de um corpo em oitenta litros de solução.
O contraste com a vizinhança fecha o quadro. Os túmulos 2 e 3 do mesmo morro foram escavados em 1973 e 1974, com arquitetura da mesma família e material do mesmo período, e nenhum dos dois devolveu corpo em estado comparável.
II
A pergunta em aberto
A pergunta central é uma só, e ela se divide em duas metades. O líquido conservou o corpo, ou o corpo produziu o líquido ao longo dos séculos dentro de uma caixa fechada.
O que se sabe é firme. O corpo existe, foi medido, pesado, autopsiado e está sob guarda do museu provincial de Hunan. A estrutura do túmulo está documentada camada por camada. A composição do líquido foi analisada com o instrumental disponível em 1972.
A primeira leitura aposta na técnica deliberada. Alguém teria preparado uma solução para receber o corpo, e os traços de mercúrio somados à acidez do líquido teriam segurado a proliferação de bactéria dentro do caixão fechado.
O buraco dessa leitura é a dosagem. A concentração de mercúrio medida é baixa demais para funcionar sozinha como agente de conservação, e a acidez registrada também aparece como resultado natural de decomposição em ambiente sem ar.
Há um agravante nessa primeira leitura. Se existia fórmula, ela era conhecimento de alguém, e conhecimento aplicado a uma marquesa de família poderosa costuma deixar rastro em texto, em inventário ou em outro sepultamento da mesma corte. Não deixou nenhum.
A segunda leitura joga tudo na arquitetura. O carvão puxou a umidade, a argila branca vedou, o oxigênio acabou nas primeiras semanas e a temperatura no fundo de dezesseis metros ficou estável o ano inteiro, criando por acidente uma câmara onde bactéria nenhuma trabalha.
Nessa leitura o líquido não é receita, é subproduto. Água de infiltração lenta somada aos próprios fluidos do corpo, com resina e pigmento dissolvidos da laca dos quatro caixões, o que também explicaria a cor avermelhada sem precisar de laboratório antigo nenhum.
O buraco da segunda leitura é a raridade. Outros sepultamentos Han com carvão e argila foram abertos na China, e o resultado normal é esqueleto. Se a arquitetura basta, o mesmo efeito deveria aparecer com alguma frequência, e não aparece.
O teste que resolveria a briga não pode mais ser feito. O líquido original foi exposto ao ar em 1972 e mudou de composição em poucas horas, e a amostra que sobrou não representa o que estava lá dentro no momento em que a tampa foi levantada.
O próprio corpo entrou em deterioração rápida assim que saiu do caixão. A partir dali, tudo o que se estuda é um material já alterado pela abertura, mantido depois em condição artificial, e não mais o estado que se quer justamente explicar.
Reproduzir também esbarra na escala. Ninguém monta um poço de dezesseis metros, cinco toneladas de carvão e um metro de argila para esperar dois mil anos, e qualquer versão acelerada em laboratório testa outra coisa, não o que aconteceu em Mawangdui.
Os 138 caroços de melão continuam sendo o detalhe que mais incomoda. Eles fixam a última refeição em poucas horas antes do fim e sugerem estação de fruta madura, mas não dizem uma palavra sobre o que foi feito com o corpo depois disso.
Fica a cena do começo, invertida. Uma broca de obra achou em 1971 um túmulo que ninguém procurava, e mais de cinquenta anos de análise responderam quem era a mulher, do que ela adoeceu, o que comeu e como a tumba foi selada.
O que a análise não devolveu foi a fórmula. Segue sem resposta se aqueles oitenta litros avermelhados foram preparados por alguém ou nasceram sozinhos ali dentro, e por que só esse corpo, entre tantos enterrados do mesmo jeito, ainda dobra o joelho.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
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