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Em outubro de 1900, uma equipe de mergulhadores de esponjas gregos, presa por uma tempestade perto da ilha de Antikythera, entre o Peloponeso e Creta, decidiu aproveitar a parada forçada para explorar o fundo do mar. A 45 metros de profundidade, encontraram os restos de um navio romano carregado de estátuas de bronze e mármore, ânforas, moedas e objetos de luxo. Os mergulhadores voltaram em 1901 com equipamento de resgate e, ao longo de meses, trouxeram à superfície dezenas de artefatos.
Entre eles, um bloco de bronze corroído do tamanho de uma caixa de sapatos. Na superfície, parecia apenas metal oxidado. Ninguém deu atenção especial. Meses depois, no Museu Arqueológico Nacional de Atenas, o bloco rachou ao secar. Dentro dele, engrenagens. Dezenas de rodas dentadas encaixadas com precisão milimétrica, cobertas de inscrições em grego antigo.
I
Abertura do Dossiê
O Mecanismo de Antikythera é composto por pelo menos 37 engrenagens de bronze interconectadas, montadas originalmente dentro de uma caixa de madeira do tamanho de um dicionário. O fragmento maior, chamado Fragmento A, contém a engrenagem principal com 223 dentes, cada um cortado à mão com tolerância inferior a um milímetro. A datação do naufrágio, feita por análise das moedas e cerâmica a bordo, situa o afundamento entre 70 e 60 AEC. A construção do mecanismo, estimada por análise epigráfica das inscrições e pelo estilo das letras gregas, é colocada entre 150 e 100 AEC.
A função foi identificada ao longo de décadas de estudo. O mecanismo é um computador analógico astronômico. Girando uma manivela lateral, o usuário podia avançar ou retroceder no tempo e ver, nos mostradores frontais e traseiros, a posição do Sol, da Lua e dos cinco planetas conhecidos na antiguidade (Mercúrio, Vênus, Marte, Júpiter e Saturno) em qualquer data. O mostrador frontal exibia o zodíaco e o calendário egípcio. Os mostradores traseiros incluíam o ciclo metônico (235 meses lunares em 19 anos solares), o ciclo dos eclipses (saros de 223 meses) e, possivelmente, o calendário dos Jogos Olímpicos e dos Jogos de Nemeia.
Em 2006, o Antikythera Mechanism Research Project, liderado por Mike Edmunds e Tony Freeth, da Universidade de Cardiff, publicou na revista Nature os resultados de uma tomografia computadorizada de alta resolução que revelou detalhes até então invisíveis. Os scans mostraram 3400 caracteres de texto grego inscrito nos fragmentos, uma espécie de manual de instruções gravado na própria máquina.
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"Primeiro veio o templo, depois a cidade." A inversão proposta pelo Mecanismo de Antikythera é diferente: primeiro veio a engenharia, depois o registro escrito que a documentava.
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II
Contexto Histórico
Nenhum texto grego ou romano sobrevivente descreve um dispositivo exatamente como o Mecanismo de Antikythera. Mas há referências indiretas. Cícero, em De Republica (54 AEC), menciona uma esfera construída por Arquimedes que reproduzia os movimentos dos corpos celestes, capturada pelos romanos na tomada de Siracusa em 212 AEC. Em De Natura Deorum, Cícero descreve outra esfera similar, construída pelo astrônomo Posidônio de Apameia, que vivia em Rodes. Rodes, crucialmente, ficava na rota marítima do navio que naufragou perto de Antikythera.
A sofisticação técnica do mecanismo levantou uma questão incômoda para os historiadores da tecnologia: como uma civilização que não dominava a relojoaria de precisão (que só surgiria na Europa medieval, mais de mil anos depois) produziu engrenagens com esse nível de tolerância? A resposta provável é que existia uma tradição de engenharia mecânica grega muito mais avançada do que os textos sobreviventes sugerem. Heráo de Alexandria, que viveu no século I EC, descreveu autômatos, máquinas de vapor e mecanismos de engrenagem em textos que chegaram até nós. Mas seus escritos são instruções simplificadas. O gap entre a descrição de Heráo e a engenharia real do mecanismo é enorme.
A tradição se perdeu. Não existem outros mecanismos de engrenagem comparáveis sobreviventes da antiguidade clássica. Os relógios astronômicos medievais islâmicos, como os de Al-Jazari (1206 EC), são as máquinas mais próximas em função, mas são posteriores em mais de mil anos e não atingem o mesmo nível de miniaturização.
III
O que as Evidências Mostram
Os estudos de tomografia de 2006 e as análises subsequentes de Freeth, publicadas em Scientific Reports (2021), permitiram reconstruir virtualmente quase todo o mecanismo. A descoberta mais significativa de 2021 foi a reprodução provável dos mostradores planetários no painel frontal. Freeth demonstrou que o mecanismo usava um sistema de engrenagens epicicloidas, rodas montadas sobre rodas, para reproduzir os movimentos aparentes dos planetas conforme vistos da Terra, incluindo as retrogradações. O modelo matemático subjacente é consistente com a astronomia grega de Hiparco (190 a 120 AEC) e, parcialmente, com o modelo de Apolônio de Perga.
A metalurgia foi analisada por espectrometria de raios X. O bronze é uma liga de cobre-estanho com baixo teor de chumbo, consistente com ligas gregas do período helenístico. Os dentes das engrenagens foram cortados individualmente, não fundidos em molde. Isso implica ferramentas de corte de precisão e horas de trabalho manual por engrenagem.
As inscrições reveladas pela tomografia são um manual operacional. Descrevem o que cada mostrador exibe, como interpretar os ciclos e o que significam os marcadores de eclipses. Uma seção menciona cores: esferas pintadas em dourado para o Sol, em prata para a Lua. Outra menciona eventos específicos dos jogos pan-helênicos. O mecanismo não era apenas um instrumento científico. Era também um calendário cívico e religioso, conectando astronomia, esporte e liturgia.
O que não se sabe: quem o construiu. A análise epigráfica das inscrições, feita por Alexander Jones, da Universidade de Nova York, indica dialeto grego do Peloponeso ou possivelmente de Rodes. A hipótese predominante é de que o mecanismo foi fabricado numa oficina de engenharia mecânica associada à tradição astronômica de Rodes, possivelmente vinculada a Posidônio ou a seus discípulos. Mas é uma inferência, não uma prova.
IV
A Pergunta em Aberto
O Mecanismo de Antikythera não é misterioso no sentido clássico. Sabemos o que faz. Sabemos como funciona. Sabemos de que época é. O mistério é outro: por que não há mais nenhum.
Uma civilização que produziu um computador analógico de 37 engrenagens com precisão submilimétrica não fez isso uma única vez. Havia, necessariamente, uma tradição de fabricação: protótipos anteriores, mecanismos concorrentes, oficinas com artesãos treinados, ferramentas especializadas. Nada disso sobreviveu. Nenhum outro mecanismo de engrenagem da antiguidade clássica chegou até nós. Nenhum manual de construção. Nenhuma oficina identificada arqueologicamente. A tradição inteira desapareceu.
A explicação mais aceita é material, não intelectual. Bronze é valioso. Mecanismos de engrenagem que ficam obsoletos ou danificados são derretidos e reutilizados. Os textos que os descreviam foram copiados em pergaminho, que se deteriora, e armazenados em bibliotecas que foram destruídas, saqueadas ou queimadas ao longo dos séculos. A perda é cumulativa, não conspiratória. O Mecanismo de Antikythera só sobreviveu porque naufragou. O fundo do Mediterrâneo fez o que nenhum museu da antiguidade conseguiu: preservar por acidente o que a história destruiu por negligência.
A pergunta em aberto é sobre tudo o que estava ao lado dele na estante da oficina onde foi construído. Quantos mecanismos similares existiram? Quão longe a engenharia mecânica grega chegou antes de a tradição se perder? A resposta está, provavelmente, no fundo do mar ou derretida em moedas romanas. O fragmento que temos é uma janela para uma sala que não podemos mais visitar.
O dossiê desta semana fica em aberto.
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