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Páscoa de 1901. Um grupo de mergulhadores gregos que caçava esponjas se abrigou de uma tempestade perto de Anticítera, uma ilha minúscula entre Creta e o Peloponeso. Quando o mar acalmou, desceram para olhar o fundo.
A quarenta e cinco metros, encontraram um naufrágio romano cheio de estátuas de bronze e mármore. Entre os tesouros, um deles trouxe à tona um caroço disforme, do tamanho de um livro grosso, coberto de calcário e verde de oxidação. Ninguém deu importância.
Meses depois, no Museu Arqueológico de Atenas, o bloco rachou ao secar. Dentro dele havia engrenagens. Rodas dentadas de bronze, encaixadas umas nas outras, com inscrições gregas microscópicas gravadas na superfície. Era um mecanismo. E ele tinha mais de dois mil anos.
O REGISTRO
O que se sabe
O objeto ficou conhecido como Mecanismo de Anticítera. A datação mais aceita coloca sua construção entre 205 e 60 a.C., e a maioria dos estudos converge para algo próximo de 150 a.C.
O naufrágio que o carregava afundou por volta de 60 a.C., provavelmente levando despojos da Grécia para a Itália.
O que sobrou são cerca de 82 fragmentos de bronze, alguns do tamanho de uma unha, dos quais se reconstruíram ao menos 30 engrenagens preservadas, e há indícios de que o aparelho original tivesse mais de 60.
Por décadas ninguém entendeu o que era. A virada veio com a tecnologia. Em 1971, o físico Derek de Solla Price, de Yale, usou radiografia para enxergar dentro dos fragmentos e contou os dentes das rodas.
Em 2006, o Antikythera Mechanism Research Project aplicou tomografia computadorizada de alta resolução e leitura de superfície por imagem. Foi então que o aparelho começou a falar.
A maior engrenagem tem 223 dentes, número que não é decorativo: 223 é a quantidade de meses lunares no ciclo de Saros, o período após o qual os eclipses se repetem. Quem montou aquilo sabia disso.
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A maior engrenagem tem 223 dentes. Não é decoração: 223 é o número de meses lunares do ciclo de Saros, depois do qual os eclipses voltam a se repetir.
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A reconstrução revelou uma máquina de calcular o céu. Girando uma manivela lateral, o usuário avançava ou recuava o tempo. Ponteiros na frente mostravam a posição do Sol e da Lua no zodíaco e a fase lunar, exibida por uma esfera meio prateada meio escura que girava sozinha.
Atrás, dois grandes mostradores em espiral marcavam os calendários: um previa eclipses lunares e solares com o mês, o dia e até a hora aproximada; o outro acompanhava o ciclo de quatro anos dos jogos pan-helênicos, incluindo as Olimpíadas.
Inscrições mencionam os cinco planetas conhecidos na Antiguidade, o que sugere que o aparelho também modelava seus movimentos. Tudo isso com dezenas de engrenagens de bronze cortadas à mão, encaixadas numa caixa de madeira que cabia nas duas mãos.
Para dimensionar: trata-se do mais antigo computador analógico conhecido. Engrenagens acopladas com essa precisão, capazes de reproduzir relações astronômicas complexas, não voltam a aparecer no registro arqueológico de forma comparável por mais de mil anos, até os relógios astronômicos da Europa medieval e os astrolábios mecânicos do mundo islâmico, já bem depois do ano 1000.
A PERGUNTA
O que fica em aberto
O que não se sabe é por que essa tecnologia desaparece.
Não há mistério sobre o que o mecanismo fazia, nem sobre quando foi feito. O enigma é o silêncio que vem depois. Um artefato com 30 ou mais engrenagens calibradas não é um primeiro rascunho.
É um produto maduro, fruto de uma tradição de oficina que precisou de gerações para se formar. Cícero, escrevendo no mesmo século, descreve aparelhos parecidos atribuídos a Arquimedes e a Posidônio, o que reforça que não era peça única. Existia uma linhagem. E então ela some.
Nenhum outro mecanismo de engrenagens dessa complexidade sobreviveu da Antiguidade. Pode ser acaso de preservação, já que o bronze era fundido e reaproveitado, e a madeira apodrece. Pode ser que o conhecimento estivesse concentrado em pouquíssimas oficinas e morresse com elas, sem se espalhar.
Pode ser que a queda das estruturas que sustentavam esse tipo de saber, o financiamento, as escolas, as cortes que encomendavam tais objetos, tenha cortado a corrente de transmissão.
O que se vê no registro é uma capacidade técnica que existiu, funcionou, e depois evaporou por mais de um milênio antes de ser reinventada.
A engrenagem de bronze segue ali, em Atenas, partida em dezenas de pedaços verdes. Sabemos ler quase tudo que ela calculava. O que não sabemos é quantas outras como ela foram fundidas de volta em moeda e estátua, e por que ninguém, durante mil anos, construiu outra.
O caso de hoje fica em aberto.
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Civilizações Perdidas
Civilizacoes que ja foram o futuro, ate deixarem de ser. O que construiram, por que ruiram e o que ficou. Historia que parece roteiro de serie.
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