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Por volta de 1848, um funcionário croata em viagem pelo Egito comprou em Alexandria uma múmia como lembrança. Levou o corpo para o próprio apartamento em Viena e o deixou de pé, encostado num canto da sala, como quem exibe uma peça exótica para as visitas. Retirou as faixas de linho que envolviam o cadáver, achou-as bonitas o bastante para guardar à parte, e as pôs numa vitrine separada.
As faixas tinham escrita. Linhas de sinais miúdos corriam pelo tecido, em tinta preta e vermelha, e ninguém no cômodo deu importância. Todo mundo que olhou concluiu a mesma coisa sem examinar de perto: era texto egípcio, hieróglifo ou coisa parecida, o acompanhamento natural de uma múmia trazida do Egito. A vitrine ficou anos ali, decorativa, com o idioma escondido à vista de todos.
Quando o dono partiu, em 1859, a múmia passou por herança a um irmão, e em 1867 foi doada ao museu de Zagreb. Ali, enfim, especialistas examinaram o conjunto. Um papiro enterrado junto ao corpo identificava a mulher: uma egípcia chamada Nesi-hensu, casada com um alfaiate de Tebas. A múmia era exatamente o que aparentava. As faixas, não.
A escrita do linho não batia com nenhum sistema egípcio conhecido. Durante décadas presumiram tratar-se de uma versão do Livro dos Mortos, e a hipótese nunca fechava. Só em 1891, quando as tiras foram enviadas a um especialista em Viena, alguém percebeu o que estava enrolado naquela mulher: o texto mais longo já preservado da língua etrusca, um livro inteiro cortado em ataduras. Cada letra podia ser lida em voz alta. Quase nenhuma frase, entendida.
I
O registro
Os fatos duros começam pelo objeto. Aberto e remontado, o linho soma pouco mais de três metros de pano, cortado em tiras que um dia formaram um único livro dobrado em sanfona. É o único livro de linho da Antiguidade que chegou até nós, um formato que os autores antigos citam mas do qual não sobrou outro exemplar. O texto se distribui em doze colunas, em tinta preta com marcações em vermelho, e reúne cerca de mil e duzentas palavras.
Segue o idioma, e aqui está a primeira armadilha. O etrusco se escrevia num alfabeto derivado do grego, então cada sinal tem som conhecido e qualquer pessoa treinada consegue soletrar o texto letra por letra, em voz alta, sem tropeço. O problema não está na leitura. Está na compreensão. O etrusco não pertence à família indo-europeia, não tem parente vivo, e o vocabulário que dominamos vem quase todo de inscrições curtas de túmulo.
Some a natureza do documento. O que sobrou é um calendário ritual: nomes de deuses, datas fixas, oferendas e cerimônias marcadas para dias e lugares específicos, em fórmulas que se repetem coluna após coluna. Dá para reconhecer o esqueleto de um manual litúrgico, algo que um sacerdote consultaria para saber que rito cumprir em cada data. A datação aponta o século III antes de Cristo, cerca de duzentos e cinquenta anos antes da própria múmia.
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Mil e duzentas palavras que qualquer um consegue pronunciar em voz alta, uma a uma, sem entender a maior parte do que dizem. O calendário de uma religião extinta que ainda guarda o próprio sentido, legível e mudo ao mesmo tempo.
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E aqui entra a anomalia que ninguém desfez. Um livro sagrado etrusco, escrito na península itálica, foi parar no Egito e terminou rasgado em faixas para envolver uma mulher que nada tinha a ver com a Etrúria. Ela era egípcia, o papiro do enterro confirma. O linho foi reaproveitado como material de atadura, tratado como pano, não como texto. Como o volume atravessou o Mediterrâneo e por que foi picado, ninguém sabe.
O resgate do sentido também esbarra na forma. Para virar atadura, o livro foi cortado no sentido errado, contra a ordem da leitura, e enrolado sem cuidado com o conteúdo. Faixas se perderam, bordas se desfiaram, colunas inteiras chegaram incompletas. Antes de tentar entender qualquer linha, os estudiosos tiveram que remontar a sequência das tiras, como quem recompõe um documento passado no triturador.
II
A pergunta em aberto
A pergunta central tem duas metades e nenhuma das duas fechou. O que o calendário de fato prescreve, palavra por palavra, e como um livro litúrgico etrusco foi parar embrulhando uma múmia no Egito. Conteúdo e trajeto, os dois pontos em aberto.
A leitura que conseguimos fazer é real, e não é pouca. Transliteramos o texto inteiro, isolamos nomes de divindades, numerais, datas e verbos rituais que retornam em intervalos regulares. Dá para afirmar com segurança que se trata de um calendário de cerimônias, com dias marcados e ofícios atribuídos a cada um. O andaime da coisa está de pé.
O que falta é o recheio. O corpus etrusco conhecido é feito de epitáfios curtos, do tipo que registra nome, filiação e idade de um falecido, e um texto litúrgico longo traz um vocabulário que jamais aparece num túmulo. Centenas de palavras do linho surgem uma única vez, sem nenhum outro lugar onde conferir o sentido. Sem repetição, não há como cruzar e deduzir.
Sobre o trajeto até o Egito, há palpites, todos frágeis. O mais aceito imagina um etrusco vivendo no Egito ptolomaico, cheio de estrangeiros na época, que teria levado o livro consigo e, gerações depois, visto o pano cair nas mãos de embalsamadores em busca de linho de qualidade. Nenhuma dessas etapas deixou registro. O nome do dono do livro, a rota, a data da viagem, tudo falta.
O ponto fraco de toda reconstrução é o silêncio documental. Não há colofão, não há assinatura, não há um único texto antigo, etrusco ou egípcio, que mencione um livro de linho viajando para o sul ou sendo desmanchado em ataduras. O objeto sobreviveu justamente porque foi reaproveitado, e o reaproveitamento apagou quase tudo que explicaria a origem.
E há a barreira que a filologia ainda não venceu. Falta ao etrusco uma pedra bilíngue, um mesmo texto repetido num idioma conhecido, do tipo que destravou o egípcio. Sem essa chave, o livro mais longo da língua é ao mesmo tempo o maior banco de exemplos e o mais teimoso: avança-se palavra por palavra, por comparação e contexto, ganhando um termo aqui e outro ali, sem nunca abrir por inteiro.
Fica a imagem final, e ela é difícil de largar. As tiras de linho repousam hoje numa vitrine em Zagreb, com os sinais nítidos o bastante para qualquer visitante que aprenda o alfabeto soletrar em voz alta. É o calendário de uma fé apagada, escrito por uma mão que sabia o que dizia, envolvendo o corpo de uma mulher que nunca falou aquela língua. Qualquer um consegue pronunciar cada linha. Ninguém consegue dizer o que ela significa.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
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