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Em 1998, mergulhadores indonésios que colhiam pepino-do-mar desceram num trecho raso de mar perto da ilha de Belitung e encontraram uma elevação escura no fundo, a cerca de dezessete metros de profundidade. Não era recife. Era louça chinesa empilhada, intacta, coberta de sedimento e incrustação. Nenhum mapa, nenhum registro de porto, nenhuma tradição local dizia que houvesse alguma coisa naquele ponto.
Embaixo da pilha havia um barco, e o barco não fazia sentido. O casco não tinha um único prego de metal. As tábuas estavam amarradas umas às outras com cordão de fibra vegetal, costuradas como se costura tecido, técnica de estaleiro do oceano Índico usada por marinheiros árabes e do golfo Pérsico, nunca pelos chineses. A madeira saiu de árvores que crescem na África e no sul da Ásia.
Dentro dele estava a maior carga chinesa isolada já recuperada do fundo do mar. Cerca de sessenta mil peças de cerâmica da dinastia Tang, na maioria tigelas vidradas produzidas em série, empilhadas em colunas apertadas dentro de grandes jarras de armazenamento, encaixadas com tanto cuidado que boa parte chegou ao século XXI sem uma trinca.
Um casco árabe, uma carga chinesa, um ponto de mar que não fica no caminho entre os dois. O achado entregou de uma vez a prova física de um comércio direto que os historiadores até então só supunham, e junto com ela uma pergunta que ninguém fechou: o que aquela embarcação fazia ali e para onde levava tudo aquilo.
I
O registro
Os fatos duros começam por uma data escrita à mão. Uma das tigelas do carregamento traz uma inscrição com dia, mês e ano do calendário chinês, correspondente a 826 depois de Cristo. A maior parte das peças saiu dos fornos de Changsha, na província de Hunan, e não era louça fina de palácio: era produção industrial barata, pintada às pressas, com motivos que de chineses não tinham quase nada. Losangos, palmas estilizadas e inscrições em estilo islâmico, decoração feita sob medida para agradar um comprador estrangeiro.
Segue a construção do barco, que é o dado mais estranho do conjunto. As pranchas foram furadas e costuradas com corda de fibra de coco, calafetadas com resina, sem um prego, sem uma cavilha de metal. A reconstituição aponta uma embarcação de cerca de dezoito metros, do tipo que navegava entre a Arábia, a África oriental e a Índia. É o único casco daquele tipo e daquele século já recuperado inteiro o bastante para ser estudado de perto.
Some a tudo o conteúdo de luxo escondido no meio da cerâmica ordinária. A maior taça de ouro Tang já encontrada, octogonal, com rostos entalhados em cada face. Frascos de prata, espelhos de bronze usados em ritual, lingotes. E três pratos de porcelana branca pintados de azul com cobalto vindo do Irã, um tipo de peça que a história da cerâmica costuma situar quinhentos anos depois. Os três estavam no porão de um barco costurado com fibra.
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Sessenta mil peças chinesas empilhadas dentro de um casco amarrado com corda, montado por mãos que aprenderam o ofício no oceano Índico, afundado num estreito que não fica na rota. A prova de que os dois impérios comerciavam direto existe, e está catalogada. O caminho que aquele barco estava fazendo, não.
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E aqui entra a geografia que incomoda. O naufrágio está no estreito de Gelasa, entre as ilhas de Bangka e Belitung, um corredor que aponta para o sul, na direção de Java. Um navio carregado voltando da China para o golfo Pérsico deveria estar bem mais ao norte, entrando no estreito de Malaca rumo ao oceano Índico. O ponto onde ele afundou fica fora do trajeto que os historiadores desenharam para aquela rota.
O resgate também deixou marcas no caso. A carga foi retirada por uma empresa comercial em duas temporadas curtas, com pressa ditada pela monção e pelo risco de saque, e depois vendida inteira para Singapura por dezenas de milhões de dólares. Parte dos arqueólogos nunca aceitou o método. A posição exata de cada peça dentro do porão, que contaria a ordem do carregamento e denunciaria as escalas da viagem, se perdeu no processo e não volta mais.
II
A pergunta em aberto
A pergunta central tem duas metades e nenhuma das duas fechou. O que uma embarcação de construção árabe fazia num estreito ao sul da rota conhecida, e para onde ela levava a maior carga chinesa já tirada do fundo do mar. Trajeto e destino, os dois pontos em aberto.
A leitura mais aceita é comercial e sem enigma. O barco teria feito escala em algum porto do sudeste asiático, provavelmente no domínio de Srivijaya, em Sumatra, ou em Java, para completar carga, pagar taxas de passagem e esperar o vento certo da monção. O estreito de Gelasa seria parte de um circuito regional bem movimentado, e não um desvio de rota.
Há quem leia o contrário. Para essa outra versão, o barco não fez escala nenhuma: foi arrastado para o sul por temporal e correnteza, longe de onde pretendia estar, e afundou no primeiro banco de areia que encontrou. O que o achado mostraria, então, não é um circuito regional, e sim que o mapa de rotas que reconstruímos para o século IX está incompleto.
O ponto forte da leitura comercial está na própria carga. Louça barata decorada para o gosto do Oriente Médio, misturada com objetos de luxo que não combinam com uma remessa única de um só cliente, sugere um barco recolhendo e negociando em etapas, porto a porto, do jeito que o comércio de longa distância funcionava. Uma embarcação com escala programada explica bem melhor um porão tão variado do que uma travessia direta.
O ponto fraco é o silêncio absoluto sobre a viagem. Não há diário de bordo, não há nome de armador, não há um único documento árabe ou chinês do século IX descrevendo uma travessia daquele porte. Os textos da época falam de mercadores do golfo em Cantão, mas nenhum descreve o barco, a tripulação ou o roteiro que explicariam a posição exata do naufrágio.
E há a barreira que a arqueologia já não derruba. O sítio foi esvaziado antes de ser mapeado com o rigor que o caso pedia, o casco sobreviveu só em parte, a madeira exposta se desfez e a camada de sedimento que guardava a sequência do carregamento foi removida. Voltar a escavar não resolve, porque quase nada continua no lugar onde afundou.
Fica a imagem final, e ela é difícil de largar. Um casco de dezoito metros amarrado com fibra de coco, deitado no escuro a dezessete metros de profundidade, sessenta mil tigelas empilhadas dentro dele por mais de mil e cem anos, a cerâmica intacta, a rota apagada. Ninguém sabe de onde aquele barco vinha, para onde estava indo, nem por que estava justamente ali.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
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