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No verão de 1982, um mergulhador de esponjas trabalhava perto da península de Kas, no sul da Turquia, quando descreveu ao capitão do barco algo estranho no fundo: "biscoitos de metal com orelhas". Eram placas de cobre em forma de pele de boi, com pontas salientes nos quatro cantos, empilhadas no leito do mar. Não eram dezenas. Eram centenas.
O que estava espalhado naquele declive submerso, a quase cinquenta metros de profundidade, era a carga inteira de um navio que afundou ali por volta de 1300 a.C. e nunca chegou ao porto. Trinta e três séculos depois, o casco apodrecido continuava marcando o lugar exato onde a viagem terminou.
O REGISTRO
O que se sabe
A escavação começou em 1984, conduzida pelo Instituto de Arqueologia Náutica, e se estendeu por mais de uma década de campanhas de mergulho. O que veio à tona é hoje um dos navios mais ricos já recuperados da Antiguidade.
Só de cobre eram cerca de dez toneladas, em lingotes no formato de pele de boi, o padrão de transporte da Idade do Bronze. Junto vinha cerca de uma tonelada de estanho.
Cobre e estanho na proporção certa dão bronze: aquele casco carregava, na prática, a matéria-prima para armar um pequeno exército.
E isso era só o começo do manifesto. O navio levava também cerca de cento e setenta lingotes de vidro bruto, em azul-cobalto, turquesa e lavanda, entre os mais antigos exemplares de vidro comercial conhecidos.
Havia presas de elefante e dentes de hipopótamo para marfim, troncos de ébano africano, jarras de resina de terebinto, contas de âmbar vindas do Báltico, cerâmica cipriota e cananeia, joias de ouro, e um escaravelho de ouro com o nome da rainha egípcia Nefertiti, o único objeto desse tipo já encontrado.
O detalhe que transforma o naufrágio em enigma não é a riqueza. É a procedência. Os objetos a bordo vêm de pelo menos sete regiões diferentes: Chipre, o Egito, a costa cananeia, a Micenas grega, a Mesopotâmia, a Núbia e o Báltico. Uma carga só, dezenas de pontos de origem espalhados por todo o Mediterrâneo oriental e além dele.
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Cobre de Chipre, estanho de origem ainda discutida, vidro provavelmente egípcio ou cananeu, marfim africano, âmbar do Báltico, ouro do Egito. Sete mundos dentro de um casco de quinze metros.
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A datação é firme. A análise dos anéis de uma tora de lenha encontrada a bordo e o estilo dos objetos situam o afundamento por volta de 1300 a.C., no auge das grandes potências do Bronze Final, quando faraós, reis hititas e soberanos micênicos trocavam cartas e presentes diplomáticos.
O navio é um retrato congelado dessa rede de trocas no instante em que ela ainda funcionava.
A PERGUNTA EM ABERTO
De quem era, e para onde ia
O que não se sabe é de quem era a carga e para onde ela ia. Não há registro de embarque, nem nome de proprietário, nem porto de destino marcado em lugar nenhum. As hipóteses se dividem.
Alguns pesquisadores leem o navio como um carregamento real, um presente diplomático ou tributo enviado de uma corte a outra, dado o ouro, o escaravelho de Nefertiti e o volume de metal estratégico.
Outros veem um mercador independente, talvez cananeu ou cipriota, fazendo a rota costeira no sentido anti-horário do Mediterrâneo oriental, recolhendo e revendendo em cada escala.
A nacionalidade da tripulação também segue em aberto. Os pesos de balança a bordo, os utensílios pessoais e as armas apontam para influência sírio-cananeia, mas há objetos micênicos que podem ser do dono ou de passageiros. O destino provável seria algum porto do mar Egeu, navegando de leste para oeste, só que isso é dedução da rota mais comum, não um dado do próprio navio.
Há um caso raro aqui: um arquivo completo do comércio mundial de uma época inteira, recuperado intacto do fundo do mar, e ainda assim mudo sobre as duas perguntas mais simples. Quem mandou e para quem. O navio guardou tudo, menos a sua própria história. Continua lá, no museu de Bodrum, com sete reinos dentro do casco e nenhum bilhete dizendo de onde partiu.
O caso de hoje fica em aberto.
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