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Em 19 de setembro de 1991, um casal de alpinistas alemães descia de um pico dos Alpes de Ötztal, na fronteira entre a Áustria e a Itália, e resolveu cortar caminho por um passo estreito a 3.210 metros de altitude.
O verão tinha sido quente. A neve daquele ano recuou mais do que o normal e o degelo abriu, no fundo de uma depressão rochosa, uma poça de água suja. Dentro dela aparecia alguma coisa marrom e lisa, meio submersa.
Os dois pararam achando que era lixo de montanhista. Era um ombro e uma cabeça. Pele escura, curtida, colada no osso, virada para baixo na água. Fotografaram, desceram até o refúgio mais próximo e avisaram que havia um alpinista acidentado preso no gelo lá em cima.
A retirada começou no dia seguinte com o método de sempre para acidente de montanha: picareta, martelete pneumático e pressa. O gelo em volta era duro, o quadril esquerdo se rompeu na manobra e ninguém no local tratava aquilo como sítio arqueológico.
Junto do corpo saíram objetos que não combinavam com um acidente recente. Um arco de teixo de quase um metro e oitenta, sem corda. Uma aljava de couro com catorze flechas. Um punhal de sílex com cabo de freixo. Duas peças de cogumelo furadas, presas em tiras de couro.
E um machado. Lâmina de cobre de pouco mais de nove centímetros, amarrada com tiras de couro a um cabo de teixo em formato de L, inteiro, com o fio ainda aparente. Foi ele que mudou a data do achado.
Machado de cobre com cabo preservado não existia em nenhum museu da Europa. A datação por radiocarbono devolveu um intervalo entre 3350 e 3100 antes de Cristo. O alpinista acidentado tinha 5.300 anos.
A pele estava inteira o suficiente para mostrar marcas. Faixas de linhas paralelas escuras na lombar, atrás dos joelhos, nos tornozelos, nos pulsos. Sessenta e uma no total, feitas com carvão empurrado sob a pele.
E, dez anos depois do resgate, uma tomografia encontrou o que nenhuma mesa de autópsia tinha visto: uma ponta de sílex de dois centímetros alojada embaixo da omoplata esquerda, com entrada por trás, de baixo para cima. A haste não estava lá.
I
O registro
O local é o Tisenjoch, um passo estreito nos Alpes de Ötztal, a 3.210 metros. Em outubro de 1991 uma equipe de topografia refez a linha de fronteira sobre o gelo e concluiu que o achado estava noventa e dois metros dentro do território italiano.
A conservação tem explicação rara. A depressão rochosa onde ele parou funcionou como uma vala protegida, e a geleira passou por cima sem arrastar o que estava dentro. O congelamento rápido secou os tecidos antes que a decomposição avançasse.
O inventário do equipamento é o mais completo já recuperado de um homem daquele período. Roupa de couro costurada com tendão, capa de fibra de capim trançada, calçado de duas camadas com solado de pele de urso, gorro de pele e um cinto com bolsa costurada.
O arco estava por acabar. A corda não tinha sido montada, e das catorze flechas da aljava só duas estavam prontas, com ponta e empenagem. As outras doze eram hastes lisas, guardadas junto de fibra torcida e de ferramentas de retoque de sílex.
O machado é a peça mais estudada do conjunto. A lâmina tem 99,7% de cobre. Uma análise de 2017 comparou os isótopos de chumbo do metal com as jazidas europeias conhecidas e apontou cobre da Toscana, no centro da Itália, a centenas de quilômetros daquele passo.
Objeto de cobre naquele momento não era ferramenta comum, era sinal de posição. Fundir, martelar e afiar a lâmina exigia forno, técnica e matéria-prima vinda de longe, e não se conhece nenhum outro machado do período com o cabo original ainda amarrado.
O conteúdo do estômago só foi lido em 2011, depois que uma tomografia localizou o órgão empurrado para cima do lugar esperado. Dentro dele: carne de cabra montesa, carne de veado, trigo einkorn e gordura, uma refeição pesada engolida entre trinta e sessenta minutos antes do fim.
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Uma ponta de sílex de dois centímetros embaixo da omoplata esquerda, e nenhum sinal da haste que a levou até ali.
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A mão direita tinha um corte profundo entre o polegar e o indicador, já com sinal de cicatrização de poucos dias. É ferimento de defesa, do tipo que se faz agarrando uma lâmina, e ele começou a subida da montanha com a mão machucada.
Em 2003, análises de DNA acharam sangue de quatro pessoas diferentes no equipamento. Na ponta de uma das duas flechas prontas, na lâmina do punhal e na capa. Nenhum dos quatro perfis é o dele.
A ponta de sílex apareceu em 2001, numa tomografia de rotina feita em Bolzano. Ela entrou por trás, em ângulo ascendente, atravessou a omoplata e rasgou a artéria subclávia esquerda, o que reduz o desfecho a poucos minutos.
E a haste some do quadro. Ponta cravada em osso não se solta sozinha, e a haste foi puxada de dentro do ombro com força suficiente para arrancá-la deixando a lasca de sílex presa lá dentro. É gesto de quem estava ao lado, não de quem atirou e foi embora.
II
A pergunta em aberto
A pergunta central é uma só. Se alguém subiu até o passo para tirar a haste daquela flecha, por que essa mesma pessoa desceu sem o machado de cobre, o objeto mais valioso que estava ali no chão.
O que se sabe é firme. O ferimento existe e está documentado em imagem. A ponta continua no lugar. A haste não apareceu no sítio, e o equipamento inteiro ficou ao redor do corpo, incluindo o machado, o punhal, o arco e a aljava.
A primeira leitura trata a retirada da haste como apagamento de rastro. Flecha daquele tempo era peça assinada. O formato do entalhe, o corte da empenagem e o desenho da ponta identificam a oficina e, por tabela, o grupo de quem atirou.
Nessa leitura o agressor subiu, puxou a haste, viu a lasca partida ficar presa no osso e desistiu, porque tirar sílex cravado em omoplata exige cortar tecido e um tempo que ninguém tem a 3.210 metros de altitude.
O buraco dessa leitura é o machado. Quem sobe até o alto para apagar identificação está tomando decisão fria, e decisão fria não abandona a peça mais rara do conjunto, um objeto que também apontava para um dono conhecido.
A segunda leitura joga tudo no tabu do lugar. Mexer no equipamento de um caído em alta montanha era proibição forte em vários grupos daquele tempo, e circular com um machado reconhecível seria o mesmo que carregar uma confissão pendurada no cinto.
Aqui a haste sai por outro motivo. Ela era a prova física de quem atirou, exposta e óbvia, enquanto a lasca enterrada no osso não estava visível para ninguém. Quem subiu levou o que acusava e deixou o que não acusava.
O buraco da segunda leitura é a mão direita. O corte de defesa mostra confronto corpo a corpo poucos dias antes, e o sangue de quatro pessoas diferentes no equipamento mostra que ele não estava sozinho em campo. Nenhum dos dois dados combina com escrúpulo.
Existe uma terceira leitura, mais recente e mais contestada, que nem trata o passo como o ponto do ataque. Um trabalho publicado em 2010 leu a disposição das peças como sepultamento: equipamento arrumado em volta, corpo trazido de baixo e depositado ali no alto.
Nessa versão o machado não foi esquecido, foi deixado de propósito, como oferenda de enterro. O ferimento teria acontecido em outro lugar, dias antes, e o corpo teria sido carregado montanha acima por quem ficou vivo.
O buraco da terceira leitura é o relógio. A refeição pesada no estômago fixa o fim em menos de uma hora depois de comer, e comida parada no aparelho digestivo não sobrevive a um transporte de dias sem alterar o quadro que a tomografia devolveu.
O teste que resolveria a briga não existe mais. O sítio foi trabalhado em 1991 como resgate de acidente, com dezenas de pessoas pisando no local em quatro dias, e a posição original de cada peça precisou ser reconstruída depois, a partir de fotografia e de memória.
Fica a cena do começo, invertida. Dois alpinistas acharam por acaso um homem de 5.300 anos com a pele inteira, e décadas de exame responderam o que ele comeu, de onde veio o cobre do machado, que doenças carregava e por onde andou na última semana.
O que o exame não devolveu foi a intenção. Segue sem resposta quem puxou a haste daquele ombro, e por que essa pessoa desceu a montanha deixando para trás o machado de cobre que qualquer um daquele tempo teria levado.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
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