|
Na noite de 1 de fevereiro de 1959, nove esquiadores montaram uma barraca na encosta nordeste do Kholat Syakhl, uma montanha de 1079 metros nos Montes Urais do norte, no que hoje é a República Komi, na Rússia. O grupo era composto por sete homens e duas mulheres, todos entre 21 e 37 anos, a maioria estudantes e recém-formados do Instituto Politécnico de Sverdlovsk. A expedição era de grau III, a categoria mais difícil no sistema soviético de montanhismo, e o líder, Igor Dyatlov, era um esquiador experiente com múltiplas travessias nos Urais no currículo.
Nenhum dos nove sobreviveu. O que aconteceu entre a montagem da barraca e a morte do último membro do grupo é, até hoje, objeto de investigação, debate e especulação.
I
Abertura do Dossiê
Quando o grupo não retornou na data prevista, 12 de fevereiro, equipes de busca voluntárias partiram de Sverdlovsk. Em 26 de fevereiro, encontraram a barraca. Estava parcialmente coberta de neve, com a estrutura colapsada, e havia sido cortada de dentro para fora em pelo menos dois pontos, com golpes de faca largos o suficiente para que uma pessoa passasse.
Os primeiros cinco corpos foram encontrados entre fevereiro e março. Dois deles, Yuri Doroshenko e Yuri Krivonischenko, estavam junto a uma fogueira improvisada na borda de uma floresta de cedros, a 1,5 quilômetro da barraca, vestidos apenas com roupas íntimas, descalços, congelados. Três outros, Igor Dyatlov, Zinaida Kolmogorova e Rustem Slobodin, foram encontrados entre a barraca e a fogueira, em posições que sugeriam tentativa de retorno. Slobodin apresentava uma fratura craniana, mas o legista determinou que não era fatal por si só.
Os quatro últimos corpos só foram recuperados em maio, quando a neve derreteu. Estavam num barranco coberto por quatro metros de neve, a 75 metros da fogueira. Liudmila Dubinina tinha costelas quebradas em ambos os lados do tórax, com fragmentos pressionando o coração. Semion Zolotariov apresentava fraturas costais similares. Nikolai Thibeaux-Brignolle tinha o crânio fraturado. Dubinina não tinha língua. As fraturas eram comparáveis, segundo o legista Boris Vozrozhdenniy, a lesões causadas por impacto de alta energia, "como de um acidente automobilístico", sem ferimentos externos correspondentes na pele.
|
"A causa da morte dos turistas foi uma força natural irresistível que os turistas não foram capazes de superar." Conclusão oficial do inquérito soviético, maio de 1959.
|
II
Contexto Histórico
A investigação oficial foi conduzida pelo procurador Lev Ivanov, do distrito de Sverdlovsk, entre fevereiro e maio de 1959. O inquérito coletou depoimentos de equipes de resgate, exames médico-legais detalhados e análises do local. A conclusão oficial, registrada em 28 de maio de 1959, foi lacônica: "A causa da morte dos turistas foi uma força natural irresistível que os turistas não foram capazes de superar." O processo foi classificado como secreto e arquivado.
O contexto político é relevante. A União Soviética dos anos 1950 não divulgava incidentes que pudessem manchar a imagem do Estado ou sugerir vulnerabilidades no território nacional. A região dos Urais abrigava instalações nucleares e militares. O caso foi rapidamente abafado, e a área do incidente ficou interditada para excursionistas por três anos.
O dossiê só voltou a público nos anos 1990, após a abertura dos arquivos soviéticos. Jornalistas e pesquisadores independentes, especialmente Yuri Kuntsevich, fundador da Fundação Dyatlov em Yekaterinburg, começaram a compilar material e pressionar por uma reinvestigação. Em 2019, o Ministério Público da Federação Russa reabriu o caso oficialmente, conduzindo uma nova análise sob a direção do procurador Andrei Kuryakov.
III
O que as Evidências Mostram
A reinvestigação de 2019 concentrou-se em três hipóteses: avalanche, furacão e avalanche de neve acumulada (slab avalanche). Em julho de 2020, Kuryakov anunciou a conclusão: avalanche de placa. Segundo o relatório, uma placa de neve compactada se desprendeu da encosta acima da barraca, caiu sobre a estrutura enquanto os ocupantes dormiam, causou as fraturas torácicas e cranianas dos membros que estavam mais próximos do impacto, e forçou os outros a cortarem a barraca para escapar.
Em janeiro de 2021, os pesquisadores Johan Gaume, do Instituto Federal de Tecnologia de Lausanne, e Alexander Puzrin, do ETH Zurique, publicaram na revista Communications Earth and Environment um modelo mecânico que dava sustentação à hipótese. Usando simulações numéricas e dados da inclinação local, demonstraram que um corte no terreno para nivelar a barraca poderia ter desestabilizado uma placa de neve com atraso de horas, explicando a diferença entre a montagem da barraca e o incidente. O modelo também demonstrou que a massa e a velocidade da placa eram compatíveis com as fraturas documentadas pelo legista em 1959.
A comunidade de pesquisadores independentes contestou a conclusão com argumentos específicos. Primeiro: os socorristas que encontraram a barraca em 26 de fevereiro não relataram depósitos de neve característicos de uma avalanche de placa no local. A barraca estava parcialmente coberta, mas não soterrada. Segundo: não há registro de avalanches na encosta do Kholat Syakhl antes ou depois do incidente, e a inclinação de 23 graus está no limite inferior para esse tipo de evento. Terceiro: o comportamento pós-fuga permanece difícil de explicar por avalanche. Por que o grupo não voltou para a barraca depois de perceber que a avalanche havia passado? As roupas e os equipamentos de sobrevivência estavam lá dentro. A noite estava a -25 a -30 graus. Fugir descalço para a floresta sem retornar é um comportamento que sugere pânico contínuo, não reação a um evento pontual.
Sobre a língua ausente de Dubinina: a explicação forense mais aceita é decomposição post-mortem. O corpo ficou quatro meses em água de degelo, e tecidos moles como língua e lábios são os primeiros a se decompor ou a serem consumidos por pequenos animais. Não há consenso absoluto, mas a explicação natural é a mais sustentada.
IV
A Pergunta em Aberto
A avalanche de placa resolve parte do problema. Explica as fraturas. Explica o corte da barraca de dentro para fora. Explica a fuga inicial. Não explica tudo. O que resta em aberto é o comportamento do grupo depois da saída da barraca. Nove montanhistas experientes, treinados para condições extremas, não tentaram recuperar equipamentos essenciais a menos de dois quilômetros de distância. Dividiram-se em pelo menos três subgrupos. Dois acenderam uma fogueira e morreram junto a ela. Três tentaram voltar e morreram no caminho. Quatro desceram para um barranco e morreram soterrados.
Há hipóteses complementares em debate. O efeito catabático: ventos gelados descendo a encosta teriam tornado o retorno fisicamente impossível. Desorientação noturna: sem lanternas e com visibilidade próxima de zero, a distância entre a floresta e a barraca torna-se incalculável. Hipotermia paradoxal: em estágios avançados de hipotermia, as vítimas frequentemente removem as próprias roupas, um fenômeno documentado pela medicina forense chamado "undressing paradoxal", que explicaria os corpos seminus.
Cada explicação cobre uma parte. Nenhuma cobre tudo. O dossiê russo de 2020 está encerrado. A comunidade independente de pesquisadores, por sua vez, permanece dividida.
A montanha foi renomeada oficialmente em 1959 como Passo Dyatlov, em homenagem ao líder do grupo. O memorial está lá, na encosta onde a barraca foi montada. O vento nos Urais continua o mesmo. A neve continua caindo no inverno. E a sequência completa de eventos daquela noite, do primeiro corte na barraca até a última morte no barranco, permanece sem reconstrução consensual.
O dossiê desta semana fica em aberto.
|