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Um homem derrubou a parede de casa e encontrou uma cidade de dezoito níveis descendo pela rocha. Ninguém sabe ao certo quem cavou, nem quando, e isso numa estrutura que abrigava milhares. O dossiê de hoje desce os túneis.
Em 1963, em um vilarejo do centro da Turquia, um homem resolveu reformar a própria casa. Derrubou uma parede e, no lugar onde esperava encontrar terra, encontrou ar. Atrás do reboco havia uma passagem escura que descia pela rocha. Ele seguiu o túnel e foi parar em um corredor.
O corredor levava a uma sala. A sala dava em outro túnel, que descia mais, e mais, e mais.
Embaixo da casa não havia um porão. Havia uma cidade inteira, escavada na pedra, com nível sobre nível, descendo dezenas de metros para dentro do solo. Espaço suficiente para abrigar milhares de pessoas. E ninguém na superfície parecia lembrar que ela estava ali.
I
O registro
O lugar se chama Derinkuyu, na província de Nevşehir, no coração da Capadócia. A geologia explica como uma cidade dessas foi possível: a região é coberta por tufo, uma rocha vulcânica tão macia que se escava com ferramentas de mão, mas que endurece ao contato com o ar. É o material perfeito para cavar fundo sem que o teto desabe.
E cavaram fundo. Derinkuyu desce em até dezoito níveis sobrepostos, alcançando cerca de 60 metros de profundidade. Não é um amontoado de cavernas. É um projeto urbano.
Há poços de ventilação que atravessam todos os andares e levam ar fresco até o fundo, poços de água protegidos de envenenamento vindo de cima, estábulos para animais nos níveis superiores, adegas, refeitórios, depósitos de comida, capelas e até uma sala em formato de cruz interpretada como escola religiosa nos andares mais baixos.
A defesa era o detalhe mais engenhoso. Entre alguns níveis há portas de pedra redondas, como mós de moinho, pesando até uma tonelada. Elas rolavam para fechar a passagem e só podiam ser manobradas por dentro, por quem já estava lá embaixo. Quem descia para se esconder podia lacrar a cidade nível por nível, isolando qualquer invasor que tentasse seguir atrás.
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Derinkuyu não foi feita para morar. Foi feita para sumir. Cada porta de pedra e cada poço de ar aponta para a mesma função: descer, lacrar e esperar do lado de dentro até que o perigo na superfície passasse.
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O que está documentado é isto: a cidade existe, foi escavada à mão no tufo, comporta uma população grande e foi projetada para abrigo prolongado, com água, comida e ventilação independentes da superfície. Há ainda um detalhe que amplia a escala do enigma.
Derinkuyu estaria ligada por um túnel de vários quilômetros a outra cidade subterrânea próxima, Kaymaklı, e a região da Capadócia guarda dezenas de complexos semelhantes. O resto, e aqui é onde o registro para, é hipótese.
II
A pergunta em aberto
O incômodo de Derinkuyu não está no que ela tem. Está no que ela não tem: uma certidão de nascimento.
Ninguém sabe com segurança quem a construiu nem quando. As escavações no tufo não deixam camadas de datação confiáveis como um sítio comum deixa, e a cidade foi usada e reusada por séculos por povos diferentes.
Algumas hipóteses atribuem o início a frígios, por volta do primeiro milênio antes de Cristo. Outras recuam até os hititas, ainda mais antigos. Há quem proponha que a escavação seja mais tardia.
O que se sabe com mais firmeza é que cristãos da Anatólia usaram Derinkuyu intensamente nos primeiros séculos da era cristã e durante o período bizantino, fugindo de perseguições e de incursões, e foi essa fase que deixou as capelas. Mas usar não é o mesmo que construir.
Ampliar uma cidade existente não diz quem a abriu na rocha.
E por que abrir tudo isso? Cavar dezoito andares à mão, mover toneladas de pedra, instalar ventilação que funciona a 60 metros de profundidade: é um esforço imenso, sustentado por gerações.
Que ameaça era grande o bastante para que um povo inteiro decidisse construir um lugar onde toda a sua gente, com animais e mantimentos, pudesse desaparecer da face da terra e fechar a porta por dentro?
E como uma obra dessa magnitude pôde ser esquecida a ponto de só voltar ao mundo porque alguém derrubou a parede errada em 1963?
Boa parte dos complexos subterrâneos da Capadócia continua mapeada apenas em parte, e nenhuma das perguntas acima tem resposta consensual. A cidade está toda ali, intacta, nível sobre nível na rocha. A data em que nasceu e o nome de quem a cavou seguem em branco.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
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