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Oitenta poços descem na pedra viva sem inscrição, sem sepultamento, sem registro de quem os cavou. Trabalho de gerações não some do arquivo sem motivo, e essa lacuna me incomoda. O dossiê de hoje desce ao escuro.
Imagine um platô de calcário varrido pelo vento, com pouca terra por cima da rocha. Ande por ele e os pés tropeçam em bocas escuras abertas no chão.
Algumas são fendas estreitas que descem a pique, como se a pedra tivesse sido rachada de propósito. Outras são entradas laterais que dão para câmaras de teto tão baixo que um adulto precisa entrar curvado.
Conte-as e elas passam de oitenta.
Foram talhadas na rocha viva em algum ponto entre o fim do Neolítico e a Idade do Bronze. E o que intriga não é que estejam ali. É que ninguém sabe dizer para quê.
Nenhuma das oitenta traz uma única palavra gravada, a maioria não guardava ossos, e não há registro que explique por que tanta gente gastou tanto esforço furando a pedra de um platô que hoje quase não tem nome.
I
O registro
As estruturas se concentram numa faixa de planalto calcário do Mediterrâneo e foram catalogadas em levantamentos de superfície ao longo do século XX. A datação é frágil, porque quase nada foi escavado com método: ela se apoia em cacos de cerâmica encontrados dentro e ao redor das aberturas.
E esses cacos abrangem um intervalo largo, do Neolítico tardio ao Bronze. Isso já diz uma coisa incômoda. Pode ser que nem todas as oitenta tenham sido feitas para a mesma coisa, nem na mesma época.
Há dois tipos principais. O primeiro é o hipogeu, uma câmara aberta na rocha por uma descida lateral, com paredes alisadas a ferramenta e teto baixo.
O segundo é o poço-fenda, um corte vertical estreito que mergulha direto para baixo, às vezes mais de três metros, com as marcas das ferramentas ainda visíveis nas paredes.
Cavar isso na mão, com instrumentos de pedra ou de cobre, num calcário duro, é trabalho de dias para cada metro. Multiplicado por oitenta, é uma obra coletiva.
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Oitenta buracos na pedra viva, e nenhuma palavra dentro de nenhum deles. Quem cavou sabia exatamente para quê. Não deixou nada que dissesse a nós.
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O que falta é justamente o que costuma resolver casos assim. Não há inscrições nas paredes, nem símbolos repetidos que sugiram uma função única.
E o achado que mais esperaríamos, num conjunto desse tamanho, está ausente na maior parte dos casos: corpos. As poucas câmaras escavadas com cuidado renderam, quando muito, ossos soltos e desarticulados, sem o arranjo de um sepultamento intacto, e quase nenhum objeto que se possa chamar de ajuar.
As estruturas chegaram até nós limpas, como se tivessem sido esvaziadas, ou como se nunca tivessem guardado o que imaginamos.
II
A pergunta em aberto
O que não fecha é a função.
A hipótese mais antiga é a funerária. Câmaras na rocha, em conjunto, lembram necrópoles conhecidas de outras partes do Mediterrâneo, onde hipogeus serviam de tumbas coletivas.
Mas aqui o argumento esbarra na ausência de mortos. Uma necrópole de oitenta câmaras deveria ter deixado ossos em abundância. Pode-se alegar que tudo foi saqueado ou que os ossos se dissolveram no calcário ácido, e talvez parte disso seja verdade.
Ainda assim, é estranho que a evidência mais básica de um cemitério seja a que mais falta.
A segunda hipótese é o armazenamento. Poços e câmaras frescas, abaixo da linha do solo, são silos naturais: protegem grãos do calor e da umidade, guardam água, escondem reservas de uma comunidade que vivia num platô sem rios.
A forma dos poços-fenda, estreitos e fundos, combina com a ideia de cisternas ou de fossos de estocagem selados por cima. O problema é o oposto do caso funerário. Se eram silos, esperaríamos encontrar resíduos, sementes carbonizadas, crostas de cal de armazenamento de água.
Em muitas estruturas, não há nada disso, ou há pouco demais para uma rede de oitenta unidades.
Resta a leitura ritual, que costuma ser o destino das estruturas que não encaixam nem em tumba nem em depósito. Fendas que descem para o escuro da terra aparecem, em muitas culturas antigas, como pontos de contato com o subsolo, lugares de oferenda lançada para baixo, de depósito votivo, de ritos que não deixam ossos nem grãos, apenas o gesto.
É uma explicação que tem a vantagem de cobrir tudo o que as outras não cobrem, e a fraqueza de poder cobrir qualquer coisa. Sem inscrição e sem oferenda preservada, ela é mais um nome para a nossa ignorância do que uma resposta.
O que sobra é a desproporção entre o esforço e o silêncio. Oitenta cortes na pedra viva são uma decisão deliberada, repetida por gerações, de uma comunidade que sabia muito bem o que estava fazendo. Eles não erraram a obra. Apenas não a explicaram.
E deixaram, abertas no chão de um platô esquecido, oitenta perguntas idênticas que descem na rocha sem fundo de resposta, à espera de alguém que finalmente cave uma delas até o fim.
O caso de hoje fica em aberto.
Amanhã, abrimos outro.
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