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Mistérios Milenares

O CASO DO DIA

UM MISTÉRIO EM ABERTO

As tábuas de Rongorongo que ninguém conseguiu ler

ILHA DE PÁSCOA (RAPA NUI) · OCEANO PACÍFICO SUL · GRAU DE MISTÉRIO, ALTO

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Tábua escura de madeira polida densamente entalhada com fileiras de sinais minúsculos, figuras humanas de braços erguidos, aves e peixes, sobre feltro escuro numa mesa de levantamento, ao lado de uma lasca de obsidiana e um dente de tubarão, e um mapa desenhado à mão de uma pequena ilha triangular cercada de oceano, sob luz âmbar focal

FICHA DO ARQUIVO

Achado: cerca de duas dezenas de objetos de madeira, entre tábuas, um bastão e adornos, cobertos por fileiras contínuas de cerca de cento e vinte sinais básicos, entre figuras humanas de braços erguidos, aves, peixes e formas geométricas, entalhados com lascas de obsidiana ou dentes de tubarão em Rapa Nui, a Ilha de Páscoa, no ponto habitado mais isolado do Oceano Pacífico.
Data: inscrições notadas por europeus só na década de 1860, quando os leitores da ilha já haviam desaparecido.
Anomalia: em mais de cento e cinquenta anos ninguém decifrou os sinais, e os estudiosos nem concordam se o rongorongo é uma escrita de verdade ou apenas um apoio de memória.

Existe uma ilha no meio do Oceano Pacífico tão distante de tudo que, para chegar até a próxima terra habitada, é preciso navegar mais de dois mil quilômetros de mar aberto. Nela, um povo que ninguém de fora havia ensinado a escrever cobriu pedaços de madeira com fileiras de sinais minúsculos, entalhados um a um. E hoje ninguém no mundo consegue ler uma única linha do que ficou gravado.

A ilha se chama Rapa Nui, conhecida no resto do mundo como Ilha de Páscoa. É um pequeno triângulo de rocha vulcânica perdido no Pacífico sul, a milhares de quilômetros da América do Sul de um lado e de qualquer outra ilha polinésia habitada do outro. Por quase todos os critérios geográficos, é o lugar habitado mais isolado do planeta, e foi ali, sem vizinhos por perto, que os sinais nasceram.

Sobre essa ilha sobreviveram cerca de duas dezenas de objetos de madeira cobertos de gravações. São tábuas, um bastão de comando, um pássaro entalhado, um adorno de peito, todos preenchidos por fileiras apertadas de figuras: gente de braços erguidos, aves, peixes, formas que ninguém sabe nomear direito. O nome que a própria ilha deu a essas inscrições é rongorongo.

O que transforma essas peças em enigma não é a idade nem a beleza do trabalho. É que ninguém, em mais de cento e cinquenta anos de tentativas, conseguiu decifrar o que os sinais dizem. Pior do que isto: os estudiosos nem sequer concordam se aquilo é uma escrita de verdade, capaz de registrar a fala humana, ou apenas um desenho carregado de memória e de ritual.

I

O registro

Os fatos duros deste caso começam tarde, com o registro europeu chegando quando já era quase impossível salvar a resposta. Só na década de 1860 é que missionários e viajantes notaram as tábuas gravadas guardadas nas casas dos ilhéus. Poucos anos antes, porém, uma tragédia havia arrancado da ilha justamente as pessoas que talvez ainda soubessem lê-las.

Entre 1862 e 1863, navios negreiros peruanos levaram à força uma parte enorme da população de Rapa Nui para trabalho no continente. Os poucos que conseguiram voltar trouxeram doenças, e epidemias varreram a ilha em seguida. Reis, sacerdotes e sábios, as pessoas com maior chance de dominar a leitura dos sinais, estavam entre os que se foram. O conhecimento se apagou quase junto com quem o guardava.

As peças que restaram são de madeira, muitas entalhadas com lascas de obsidiana ou com dentes de tubarão bem afiados. Os sinais são pequenos, regulares, dispostos em linhas contínuas que preenchem cada superfície disponível. Contam-se por volta de cento e vinte elementos básicos que se combinam em centenas de variações, um número que fica no meio do caminho entre um alfabeto simples e um sistema de escrita completo.

O modo de ler é uma das partes mais estranhas de tudo. As linhas seguem em bustrofédon invertido: começa-se pela linha de baixo, lê-se da esquerda para a direita, e ao chegar ao fim é preciso girar a tábua de cabeça para baixo para continuar na linha seguinte. Cada fileira aparece de ponta-cabeça em relação à anterior, um vaivém que pouquíssimos sistemas de escrita no mundo inteiro já usaram.

Rapa Nui pode ter inventado a escrita sozinha, sem contato com nenhum outro povo que já escrevesse, algo que aconteceu pouquíssimas vezes em toda a história humana. Ou pode ter copiado apenas a ideia a partir de um documento europeu visto uma única vez. Nem para essa dúvida existe prova.

Ainda no século XIX houve uma tentativa séria de tradução. Um bispo instalado no Taiti reuniu algumas tábuas e pediu a um homem nascido em Rapa Nui que cantasse o que elas diziam. O resultado foram longas recitações que, quando comparadas entre si, não batiam: o mesmo trecho recebia leituras diferentes a cada vez. Em vez de destravar o código, a experiência deixou claro que ninguém ali ainda lia de fato os sinais.

Mais de um século depois, pesquisadores encontraram no meio de uma das tábuas algo que parece um calendário lunar, uma sequência de sinais que acompanharia as fases da lua ao longo do mês. É a única passagem para a qual se arriscou um sentido com alguma aceitação entre especialistas. Todo o resto continua mudo, fileira após fileira de figuras que ninguém sabe se são palavras, nomes próprios, orações ou apenas apoios para a memória de quem recitava.

 
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II

A pergunta em aberto

A pergunta central é direta e sem resposta fechada. Um povo isolado no ponto mais remoto do Pacífico gravou milhares de sinais ordenados em madeira, com método e paciência, e nem sabemos ao certo se aquilo é escrita de verdade ou outra coisa. O que é, afinal, o rongorongo.

Uma leitura sustenta que se trata de uma escrita genuína, inventada na própria ilha. Se estiver certa, Rapa Nui teria feito algo que quase nenhuma sociedade humana fez: criar do zero um sistema capaz de registrar a língua falada, sem nunca ter visto a escrita de outro povo. Seria uma das raríssimas invenções independentes da escrita em toda a história conhecida, ao lado de casos como a Suméria e a China antiga.

O problema é que a prova não aparece. Textos escritos de verdade costumam repetir padrões, mostrar marcas gramaticais, deixar pistas estatísticas de que codificam uma língua real. Os corpos de rongorongo que sobreviveram são curtos e poucos, e nenhuma análise conseguiu demonstrar com firmeza que ali existe linguagem estruturada, e não apenas uma sucessão bonita de imagens.

Daí a segunda leitura, que vê nas tábuas um recurso de memória, e não de escrita plena. Os sinais seriam apoios visuais para quem já sabia de cor genealogias, cânticos e rituais, gatilhos para lembrar a sequência certa, e não um registro que qualquer pessoa alfabetizada pudesse decodificar sozinha. Explicaria por que as recitações do século XIX nunca coincidiam de uma leitura para a outra.

Há ainda quem ligue o rongorongo ao contato com os europeus. Em 1770, uma expedição espanhola anexou formalmente a ilha e fez líderes locais assinarem um documento oficial. Alguns pesquisadores levantam a hipótese de que ver aquele papel coberto de marcas com significado tenha inspirado os ilhéus a criar seus próprios sinais depois. Nesse caso, o rongorongo seria uma invenção recente, imitando a ideia da escrita sem copiar nenhuma letra.

Nenhuma das leituras tem prova definitiva, porque falta a peça que sempre falta nesses casos: gente viva que ainda soubesse ler. Quando os europeus enfim quiseram aprender, os leitores já haviam desaparecido, levados pelos navios ou pelas doenças. O que sobrou foram as tábuas mudas e um punhado de recitações que ninguém consegue confirmar nem comparar com segurança.

O que resta é a madeira e o silêncio. Alguém, num pedaço de rocha vulcânica cercado por milhares de quilômetros de oceano em todas as direções, sentou-se com um dente de tubarão na mão e gravou fileira após fileira de sinais numa ordem cuidadosa, virando a tábua a cada linha completada. Fez tudo com intenção, com método, com uma paciência imensa. E não deixou ninguém capaz de nos dizer o que quis registrar.

Fica a imagem final, e ela não sai da cabeça. Pedaços escuros de madeira polida, cobertos de gente miúda de braços abertos, de aves e peixes entalhados em fileiras perfeitas, guardados hoje em museus a um oceano inteiro de distância da ilha que os criou. As figuras continuam ali, nítidas, em ordem impecável. E cada uma delas segue calada, no idioma que se apagou antes de alguém de fora aprender a escutá-lo.

O caso de hoje fica em aberto.

Amanhã, abrimos outro.

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Segundo a edição, como se lê uma fileira de sinais numa tábua de rongorongo?

ADe cima para baixo, sem girar a tábua em nenhum momento
BComeça na linha de baixo, segue da esquerda para a direita, e a tábua é virada de cabeça para baixo a cada linha
CEm espiral, do centro da tábua até a borda
DDa direita para a esquerda, de trás para frente, sem girar a peça

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