Mistérios Milenares #002 · 72 segundos que ninguém consegue explicar
Mistérios Milenares

DOSSIE No 002

O MISTERIO DA SEMANA

72 segundos que ninguém consegue explicar

OHIO, EUA · 1977 · GRAU DE MISTÉRIO, ALTO

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72 segundos que ninguém consegue explicar

Em 15 de agosto de 1977, o radiotelescópio Big Ear, instalado num campo agrícola da Universidade Estadual de Ohio, a poucos quilômetros de Delaware, captou um sinal de rádio que não deveria existir. O telescópio operava em modo automático, varrendo o céu em faixas estreitas enquanto a rotação da Terra movia lentamente o campo de visão. Os dados eram impressos em papel contínuo, coluna por coluna, número por número, e revisados dias depois por voluntários do projeto SETI da universidade.

Três dias mais tarde, o astrônomo Jerry Ehman sentou-se à mesa com a impressão, percorreu as colunas com o olhar, e parou. Um pico de intensidade brutal saltava do papel: a sequência alfanumérica 6EQUJ5, representando uma curva de sinal que subiu de forma abrupta, atingiu um pico trinta vezes superior ao ruído cósmico de fundo e desceu com a mesma suavidade com que subira. Ehman circundou a sequência com caneta vermelha e escreveu na margem uma única palavra: "Wow!"

I

Abertura do Dossiê

O sinal durou exatamente 72 segundos. Essa duração não foi acidental: era o tempo máximo que qualquer fonte celeste pontual permaneceria no campo de visão do Big Ear enquanto a Terra girava. Se o sinal tivesse vindo de uma estrela, de um quasar ou de uma civilização extraterrestre transmitindo da posição certa no céu, 72 segundos é exatamente o que o telescópio registraria. A curva de intensidade corresponde perfeitamente ao padrão de resposta da antena para uma fonte fixa no firmamento. Nenhuma fonte terrestre conhecida produz esse padrão.

A frequência também era significativa. O sinal foi captado em 1420,4556 MHz, praticamente idêntico à linha de emissão do hidrogênio neutro, 1420,405 MHz, a frequência mais fundamental do universo observável. Nos anos 1950, os físicos Giuseppe Cocconi e Philip Morrison publicaram no Nature (1959) um artigo argumentando que, se civilizações extraterrestres tentassem se comunicar por rádio, a frequência de 1420 MHz seria a escolha lógica.

O Big Ear tinha dois cornetas de alimentação, separadas por alguns minutos de arco. Se um sinal real de origem celeste passasse pelo campo de visão, deveria aparecer primeiro numa corneta e depois na outra, com um intervalo de aproximadamente três minutos. O sinal Wow! apareceu em apenas uma. Isso nunca foi explicado de forma satisfatória.

"Deveria ter sido chamado de 'Hm?' em vez de 'Wow!'. Porque não sabemos o que era." Jerry Ehman, em entrevista ao Cleveland Plain Dealer, anos 2000.

II

Contexto Histórico

O radiotelescópio Big Ear foi construído em 1963 por John Kraus, engenheiro elétrico da Universidade Estadual de Ohio, como parte do Ohio Sky Survey. A antena era enorme e primitiva pelos padrões atuais: uma superfície refletora fixa de 103 metros de largura, que usava a rotação terrestre como mecanismo de varredura. Em 1973, Bob Dixon assumiu a coordenação e redirecionou o telescópio para buscas SETI.

O projeto operava com orçamento quase zero. Os dados eram impressos em papel perfurado e analisados manualmente por voluntários. Jerry Ehman era professor de engenharia elétrica na Universidade Franklin e trabalhava no projeto de forma não remunerada.

O Big Ear continuou operando até 1997, quando foi demolido para dar lugar a um campo de golfe. Em 24 anos de operação contínua, nenhum sinal comparável ao Wow! foi captado novamente. Outros telescópios apontaram para a mesma coordenada celeste nas décadas seguintes: o Very Large Array, o Allen Telescope Array, o Parkes na Austrália. Nenhum detectou nada.

III

O que as Evidências Mostram

As hipóteses terrestres foram investigadas uma por uma. Interferência de satélites: improvável, nenhum satélite operava em 1420 MHz, frequência internacionalmente protegida. Reflexão de sinal terrestre em detritos espaciais: não reproduz o padrão de intensidade observado. Erro instrumental: o Big Ear foi calibrado sem anomalias registradas.

Em 2016, Antonio Paris publicou uma hipótese sugerindo que cometas passando pela região poderiam emitir na frequência de 1420 MHz. A comunidade SETI rejeitou: a intensidade do Wow! foi 30 vezes o ruído de fundo, ordens de magnitude acima do que um cometa produziria. Cometas se movem no céu; a fonte do Wow! permaneceu estacionária durante os 72 segundos.

O que a evidência permite afirmar: o sinal veio de uma direção na constelação de Sagitário, próxima ao grupo estelar Chi Sagittarii. Não corresponde a nenhuma fonte de rádio catalogada. Apresenta todas as características que um sinal artificial de origem interestelar apresentaria. Apresenta simultaneamente uma anomalia que o torna difícil de confirmar: a ausência na segunda corneta, e a recusa absoluta em se repetir.

IV

A Pergunta em Aberto

O problema fundamental do sinal Wow! é epistemológico. Para que um evento seja aceito como evidência científica, precisa ser replicável. O Wow! foi captado por um único telescópio, em uma única corneta, em uma única noite, e nunca mais apareceu.

Há quatro cenários abertos. Uma fonte natural transitória que emitiu brevemente na frequência do hidrogênio. Interferência terrestre de origem ainda não identificada. Um sinal artificial de origem extraterrestre, transmitido uma única vez naquela direção. Um artefato instrumental que as calibrações de 1977 não tinham resolução para identificar.

Robert Gray, que dedicou duas décadas a buscas de acompanhamento, concluiu em The Elusive Wow (2011) que o sinal é genuíno, não instrumental, mas que sua natureza permanece indeterminada. O Big Ear foi demolido. A coordenada celeste está catalogada. De vez em quando, um radiotelescópio aponta para aquela região de Sagitário e escuta. O silêncio, até agora, permanece completo.

O dossiê desta semana fica em aberto.

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